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Na cena política, assim como no futebol, quem se desloca recebe

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Na semana passada, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, declarou que quer ser “o presidente de todos os brasileiros”. Com a declaração, abriu a porteira para a sua candidatura ao Palácio do Planalto pelo PSDB.

Considerando as atuais circunstâncias do partido, em que o senador Aécio Neves (MG) está ferido e o ex-ministro José Serra (SP) anda meio de lado, Alckmin assume a preferência. “Internamente, o Alckmin já é considerado candidato. Tasso (Jereissati) deixou claro isso quando afirmou que ele é o primeiro da fila”, afirmou o deputado federal Silvio Torres (SP), secretário geral da legenda.

Antiguidade é posto no PSDB. Entre os tucanos, cada ciclo eleitoral dá a um político a prioridade na disputa. Só não foi assim em 1994, quando o Plano Real elevou FHC ao posto de presidenciável para desgosto do então senador Mário Covas (SP). Nas eleições seguintes, a vaga foi de José Serra, Geraldo Alckmin e Aécio Neves, respectivamente.

Portanto, Alckmin está novamente na pole position, já ocupada por ele em 2006 quando disputou e perdeu para o ex-presidente Lula. Mas existe um porém que pode diferenciar a situação de 2018 das anteriores: a política está ditando novos tempos, e isso pode afetar as escolhas no partido.

Alckmin é a maior liderança da legenda hoje e, como tal, tem a preferência. Porém, a estrela em ascensão é o prefeito de São Paulo, João Doria, seu pupilo. Trata-se de criatura política inventada por Alckmin que ameaça engolir o criador.

Com a ascensão de Doria, Alckmin tornou-se um político “mais do mesmo”. Ainda que seja correto, sua administração no Estado não empolga. A opção por ele seria por “default” e não por uma aclamação resultante de um amplo reconhecimento de suas chances.

Além do mais, o mundo político sabe que Doria tem mais apelo e mais pegada para enfrentar Lula. Sabe também que o prefeito de São Paulo representa o “novo” que muitos desejam. Sabe ainda que Doria consegue aliar a estrutura tradicional do PSDB com a narrativa política dos novos tempos.

Na verdade, a campanha que está nas ruas atualmente se desenrola entre três figuras: Lula, João Doria e o deputado Jair Bolsonaro (PSC-RJ).

Dos três, o prefeito paulistano é o candidato mais “digital” e mais antenado. Um dia está no interior da Paraíba e no dia seguinte em Paris. Conseguindo aliar uma narrativa de trabalho a uma incessante rotina diária, ele se parece com o político que todos gostariam de ver no comando do país.

O paradoxo entre a busca pelo novo e as travas eleitorais que beneficiam o establishment auxilia Doria. Ele é o único dentro dos grandes partidos que pode criticar a política tradicional e ao mesmo tempo, beneficiar-se dela.

No entanto, a viabilidade de Doria depende da desistência de Alckmin. Ou de uma mudança de caminhos. O prefeito, em recente entrevista, admitiu que algumas circunstâncias podem tirá-lo do PSDB. Doria pode continuar fazendo sua campanha pessoal sem se declarar candidato.

Caso a pré-candidatura de Alckmin não emplaque, ou a operação Lava-Jato atrapalhe seus planos, ele assumirá a vaga como uma imposição das circunstâncias.

Mas não é decisão para agora. Ela será tomada no primeiro semestre do ano que vem e de acordo com os acontecimentos. Lembrando o inesquecível Gentil Cardoso, técnico de futebol dos anos 1950: “Quem pede tem preferência, quem se desloca recebe.” A preferência é de Alckmin, mas quem está se deslocando e ocupando espaços é João Doria.

Publicado n’O Tempo em 06/09/2017

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