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O ano não quer terminar

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Pantaleão e as visitadoras, de Mario Vargas Llosa, conta a hilariante história do militar que recebe a missão inesperada de criar um serviço de prostitutas para atender soldados isolados na selva amazônica. Tudo, naturalmente, dentro do mais absoluto sigilo militar. O capitão Pantaleão Pantoja tem que se mudar para Iquitos, no meio da selva, manter-se afastado dos demais militares, usar trajes civis e, acima de tudo, não contar nada à mãe e à mulher. É claro que a insólita missão termina criando mais problemas que soluções. O texto é impagável.

Ninguém sabe se a arte imita a vida ou vice versa. Lembro o livro de Vargas Llosa por causa da diretoria de operações estruturadas da Odebrecht. A empresa, sempre muito organizada, consciente de sua capacidade, segura de seus passos e ciente dos prazos, decidiu criar um setor exclusivamente para organizar o pagamento de propinas. Eram tantos os beneficiários que havia o risco de adiantar dinheiro para quem não deveria receber, ou deixar de pagar o devido, o que significaria rompimento de contrato informal.

O departamento de propinas, a exemplo do exército de prostitutas de Pantaleão, não poderia ter êxito. Ou melhor, se funcionasse bem estaria aprofundando seu erro original. Não havia como dar certo. E não deu, nem na realidade, nem na ficção. O batalhão de 78 executivos da Odebrecht começa a assinar nesta semana os documentos das respectivas delações premiadas. Elas serão examinadas pelo Ministério Público, analisadas e resumidas para que o Ministro Teori Zavascki, relator do processo, comece os julgamentos.

Os acusados são os políticos que frequentam as páginas dos jornais. Seriam mais de 130 deles, deputados, senadores, governadores, ministros. Eventualmente gente próxima ao presidente da República. Tudo registrado no departamento de propinas. Desastre para um governo que se equilibra entre suas indecisões. A administração já comemorou seis meses de existência. Até hoje, contudo, não anunciou propósitos, nem revelou metas. O que fez até agora foi insistir na política de contenção de gastos e na reforma da previdência, cujo projeto ainda não foi enviado ao Congresso.

A reunião com os governadores para adiantar algum dinheiro aos falidos tesouros estaduais significou mais apoio político para realizar as reformas estruturais reclamadas pela área econômica. Projetos, no entanto, não apareceram em cena. A lua de mel acabou. Logo após o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff os números da economia nacional melhoraram. As ações subiram na Bolsa de Valores, a cotação do dólar caiu e as perspectivas de investidores indicavam rápida recuperação. Mas, o pessoal descobriu que os estragos promovidos pela decaída administração petista foram muito maiores do que o imaginado. É o que o presidente Temer chamou de déficit de verdade.

O mundo está em ebulição. O nacionalismo está de volta. Os ventos internacionalistas se dissiparam. Agora, com os empregos em processo de desaparecimento, cada um cuida de seu pedaço. A lógica da crise econômica é defender mercado, impedir a fuga de capitais e atividades comerciais. Empresas norte-americanas atuam em vários países asiáticos e centro-americanos. É comum comprar roupas nos Estados Unidos com etiqueta indicando que a peça foi produzida no Vietnã, na Tailândia ou no Haiti. Os empregos voaram para longe. O mesmo fenômeno ocorre no Brasil. A profunda mudança de paradigma não está na ordem do dia nas preocupações nacionais.

A diplomacia terá que descobrir atalhos, possibilidades e oportunidades no novo mundo de Donald Trump. Mas, o governo federal admite que sua atuação fique restrita às relações com o Congresso Nacional. A exoneração de Geddel Vieira Lima, sexto ministro de Temer a deixar a administração, completa a semana desastrosa para o Palácio do Planalto. A crise é menor, mas a oposição vai pedir instalação de CPI e promete protocolar pedido de impeachment do presidente da República. Os petistas e aliados prometem balançar a árvore do poder.

O governo Temer parece paralisado. Não avança, nem recua. Permite que o noticiário político seja na realidade resultado de trabalho dos repórteres que cobrem a área policial. Prisões sobre prisões. Delações premiadas e acordos de leniência. A da Odebrecht é chamada de delação do fim do mundo. Todo o governo está pressionado. Diante deste cenário nem a informação de que a inflação recuou no último mês conseguiu melhorar o ambiente. O governo precisa sair do canto do ringue e descobrir outras fronteiras. Esse ano de 2016 vai longe.

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