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Brasília: da alvorada ao caos e vice-versa

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Juscelino Kubitschek de Oliveira, senão por inúmeros atos de ousadia, ficou imortalizado pelo feliz pensamento:

“Deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das mais altas decisões nacionais, lanço os olhos mais uma vez sobre o amanhã do meu país e antevejo esta alvorada, com fé inquebrantável e uma confiança sem limites no seu grande destino”.

A residência oficial do presidente foi batizada por JK como Palácio da Alvorada. Quando questionado sobre o porquê do nome Alvorada, ele respondeu com uma pergunta: “Que é Brasília, senão a alvorada de um novo dia para o Brasil?”.

Brasília, cidade monumento

A Brasília da alvorada foi concebida na feliz parceria do genial urbanista Lucio Costa, do arquiteto inovador Oscar Niemeyer e do artista plástico e paisagista Roberto Burle Marx. O comentário do cosmonauta russo Yuri Gagarin, em 1961, ilustra a ousadia da cidade que nascia: “Tenho a sensação de estar desembarcando num planeta diferente, não na Terra”.

A arquitetura única no mundo fez da cidade o maior acervo a céu aberto da arquitetura moderna. Os amplos jardins e milhares de árvores plantadas respondiam pelo lado bucólico, mistura do verde salpicado de flores entre monumentos. Lembro com saudades da Brasília nas décadas de 1960 a 1980, uma cidade tranquila, com casas sem grades e trânsito civilizado onde acompanhávamos o crescimento das mangueiras, das paineiras, dos ipês e de outras árvores que transformavam a paisagem urbana.

Bons tempos, como descrito por Paulo Lyra no Correio Braziliense (1987), em que as famílias saíam da missa da Igreja Dom Bosco e iam passear na W3 Sul, então lugar de paquera. Um bom programa era pegar uma matinê no Cine Cultura, que ficava na 507 Sul.

Desigualdade social

Essa Brasília já não existe. O que vemos hoje é uma selvagem especulação imobiliária, puxadinhos por todo canto, uma crescente desigualdade social, trânsito caótico e violento, violência de diferentes tipologias, aumento de consumo de drogas, apagões, buracos para dar e vender, atendimento à saúde precário, educação deficiente e outros ingredientes que contribuem para baixar o nível da qualidade de vida e a consolidação do caos na capital de todos os brasileiros.

Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Distrito Federal tem apresentado aumento da desigualdade social. Para o economista e cientista político Marcio Pochmann, essa tendência ocorre porque o crescimento populacional se dá na base da pirâmide social.

Redistribuição urbana

No entanto, esse caos pode ser revertido. O respeito à faixa de pedestre, introduzida em 1997, é motivo de inspiração para resgatar a utopia dos fundadores de Brasília. Essa conquista, baseada na educação, faz renascer a esperança de novas utopias que devem ser traduzidas em projetos de revisão urbanística e de inclusão social.

O geógrafo Aldo Paviani propõe a fórmula que possa levar à distribuição da qualidade de vida em toda área metropolitana de Brasília. Ele prega a descentralização das novas estruturas urbanas, criando postos de trabalho. Com essa descentralização virá a valorização dos espaços que serviram para abrigar antigos favelados, inquilinos de fundo de lotes e todos os que migraram sem condições de evoluir socialmente. A capital de todos os brasileiros pode retomar a sua missão, que é a de contribuir para a construção dos fundamentos de uma nova civilização com justiça social.

O caminho é a educação

O melhor caminho para a transformação do caos em uma nova alvorada é a educação, que, segundo Jean Piaget, tem como meta principal criar homens que sejam capazes de fazer coisas novas, não simplesmente repetir o que outras gerações já fizeram. Homens que sejam criadores, inventores, descobridores. A inauguração do Museu de Educação de Brasília, na Candangolândia, que registra a inovação do ensino público introduzido por Anísio Teixeira, prevista para 21 de abril de 2014, poderá ser o símbolo da retomada da alvorada de nossa cidade.

Decidi escrever este artigo quando minha neta de 11 anos me contou que, a caminho da escola, se sentia feliz escutando a Alvorada de Carlos Gomes. Como acredito que a boa música inspira e energiza, sugiro que cada brasiliense, assim como minha neta, sintonize todos os dias, às 6h50 da manhã, a Brasília Super Rádio FM (89,9 MHz), do saudoso Mário Garófalo, e ouça a Alvorada da ópera Lo Shiavo, de Carlos Gomes. Certamente esse momento lúdico vai estimular em cada um de nós a vontade de construir uma nova alvorada para termos em Brasília um ambiente digno para as próximas gerações.

Publicado em UnB Futuro em 15/08/2017

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