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A China, o Brasil e o darwinismo político

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Quando Charles Darwin publicou seu mais famoso livro – A Origem das Espécies –, o impacto global foi imediato. Afinal, tudo mudou a partir da nova visão de desenvolvimento biológico apresentada por ele. A adaptação de organismos por meio de uma seleção natural balançou o mundo ocidental, colocando a Igreja em situação desconfortável.

Na China, o livro também teve um impacto muito forte. No início do século XX, intelectuais e estudiosos chineses demonstraram uma fascinação muito grande pelos trabalhos de Charles Darwin e de Thomas Huxley, autor de Evolução e Ética e braço direito do naturalista inglês.

Importante lembrar que no começo do século XX, o sentimento de humilhação dos chineses perante o ocidente ainda era latente, devido às sucessivas derrotas impostas principalmente pelo Reino Unido. O que Huxley e Darwin trouxeram foi uma concepção sobre a sobrevivência do mais forte, que rapidamente foi incorporada pelos chineses no campo político.

A tradução de Huxley para o mandarim, feita pelo autor chinês Yan Fu, causou impacto enorme. A versão de Fu, no entanto, tinha um erro. O termo “seleção natural” foi traduzido como “eliminação”, afetando assim a forma como toda uma geração de intelectuais chineses passou a compreender o conceito central de Huxley. Quem sobraria na cadeia biológica (e política nesse caso), seria eliminado do sistema natural (ou político).

A política chinesa em relação ao mundo é de se mostrar forte.

A conquista dos mais fracos não se faz pelas armas, e sim pelo dinheiro, o que leva países como Brasil, Argentina, Venezuela, entre outros, a abraçarem profundamente um país do qual, infelizmente, não conhecem quase nada. Para a China, apenas ela e os Estados Unidos permanecem no topo da cadeia alimentar política do mundo. E a espécie mais forte e mais hábil há de dominar de alguma forma a outra.

No Brasil, o darwinismo político também vem exercendo seus aspectos evolutivos. Não ainda no domínio geopolítico, mas certamente no campo doméstico. Os mais fracos estão sendo devorados pelos mais fortes a cada nova operação da Polícia Federal. Novas espécies de políticos estão surgindo, mas ainda resta provarem que não serão logo extintos por suas fraquezas.

“Essa geração de políticos será eliminada em duas parcelas”, afirmou a esta coluna um cabisbaixo deputado petista. “O que a mantinha intacta era o fluxo financeiro responsável por sua alimentação artificial. Se precisarem sobreviver exclusivamente pelo apoio popular, poucos irão continuar.”

O darwinismo político chinês visa ao mundo, enquanto o nosso é doméstico. Estamos vivendo a fase em que o peixe tenta sair da água e virar anfíbio, e isso deixará para trás tudo com o que estamos acostumados. Por mais que Yan Fu tenha errado a terminologia em sua tradução, ele não se equivoca quando a ótica é política.

Espécies rudimentares de políticos brasileiros estão sendo mesmo eliminados. Esperemos que isso ocorra rapidamente, já que no campo internacional teremos de travar outra batalha pela relevância geopolítica, que também vive um processo evolutivo no qual prevalece a lei que Darwin formulou há mais de 150 anos: os mais fortes podem simplesmente devorar os mais fracos.

Publicado na GQ Magazine em 4/4/2017

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