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Lula vai depor mais fraco

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A revelação, feita pelo ex-diretor da Petrobras Renato Duque, responsável pela arrecadação da propina destinada ao PT – Lula “tinha pleno conhecimento e detinha o comando do esquema” – levou o ex-presidente ainda mais para o centro do escândalo investigado pela Operação Lava-Jato. O depoimento de Duque ao juiz Sérgio Moro, concedido na última sexta-feira, 5, a alguns dias apenas do depoimento de Lula ao juiz, marcado para a próxima quarta-feira, 10), em Curitiba.

Além de arrastar Lula, Renato Duque detalhou a divisão da propina no PT. Segundo ele, o ex-presidente teria determinado que a arrecadação ao partido fosse negociada pelo ex-tesoureiro João Vaccari.

Outra importante figura do PT abalada pelas revelações de Renato Duque é o ex-ministro Antonio Palocci. De acordo com o ex-diretor da Petrobras, Palocci era o responsável por “gerenciar” as propinas para o ex-presidente no âmbito dos contratos da estatal.

Até então, Lula capitalizava sua liderança nas pesquisas de intenção de voto para a disputa presidencial de 2018 e o crescimento da identificação partidária ao PT, captado pelo último Datafolha. Segundo a pesquisa, a simpatia pelo partido cresceu de 9% para 15% entre outubro de 2016 e abril deste ano. Esses dados contribuíam para transformar o depoimento do ex-presidente em evento favoravelmente midiático. Além de mobilizar os movimentos sociais ligados ao partido, a defesa de Lula pediu a Moro que a fala fosse transmitida ao vivo.

Depoimento da Lava-Jato politizado

A estratégia de politizar a Lava-Jato deve ser mantida pelo PT. É inegável, porém, que as contundentes revelações de Renato Duque sobre o suposto envolvimento de Lula no escândalo têm potencial para “sangrar” ainda mais o ex-presidente até o dia 10. Além de amplamente divulgada pelos meios de comunicação, a citação de seu nome por mais um delator pode esfriar o ânimo da militância petista.

Se é verdade que Lula se beneficia da condição de vítima, sobretudo na comunicação com sua base social de apoio, também é verdade que as novas revelações ajudam a Lava-Jato a se fortalecer junto à opinião pública. Em Curitiba, por exemplo, há 14 outdoors trazendo desenhos de Lula com roupas de presidiário.

Nesse jogo, que combina aspectos políticos, jurídicos e midiáticos, Lula pode até tentar desconstruir as revelações de Duque, questionando o fato de seu depoimento ter sido realizado apenas cinco dias antes de sua ida a Curitiba.

A estratégia de Lula de politizar o debate também pode ser constatada pelas afirmações feitas pelo PT de que o adiamento do depoimento do ex-presidente, inicialmente marcado para o dia 3 de maio, ocorreu para enfraquecer a mobilização da militância petista, que, dada a proximidade daquela data com 28 de abril, dia da greve geral em todo o país, e Dia do Trabalho (1º de maio), prometia ir em grande número à capital paranaense.

Nessa mesma linha, neste domino, 5, durante a abertura do 6o Congresso do PT, em São Paulo, Lula afirmou que “quem quiser “pegá-lo” terá que competir com ele pelas ruas do país, afirmando que está com mais “tesão” do que nunca de “ser candidato”.

Embate Lula x Moro

Apesar dos movimentos políticos realizados pelo PT, é fato que o depoimento de Lula acontecerá em circunstâncias ainda mais adversas do que antes, pois o conteúdo revelado por Renato Duque mobiliza também a militância contrária ao ex-presidente, principalmente nas redes sociais, ampliando o noticiário dos grandes veículos de comunicação com uma narrativa a favor da Lava-Jato.

Esse “embate” entre Lula e Moro será bastante explorado pela imprensa até a próxima quarta-feira. Um indício é a capa da revista Veja desta semana, com o título “O primeiro encontro cara a cara: Moro x Lula”.

Por meio de sua retórica, Lula até pode se beneficiar, principalmente se conseguir se manter como “vítima”. É certo, contudo, que o clima político e jurídico em torno de seu depoimento é favorável a Moro.

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