dilma

É a política, estúpido

Imprimir

Pode parecer cedo para tirar lições do impeachment de Dilma Rousseff. Mas, embora a duração do retrocesso socioeconômico que o país vive ainda seja desconhecida, é possível detectar erros que podem ser logo corrigidos.

No lugar da renitente mandatária, os brasileiros hoje espreitam a chegada de seu vice, Michel Temer. Nada há que esperar da presidente que, desdenhando de fundamentos econômicos, levou milhões ao desemprego, trouxe de volta a carestia, comprometeu gravemente o erário e abriu caminho à recessão. E, junto com seu entorno, destroçou a esperança na política – esta a mais nefasta de suas heranças.

O vice adentra esse cenário sem gerar esperanças – o que pode lhe ser positivo. Espera-se, o que já será muito, que inverta as expectativas atuais, colocando “o país na rota do crescimento”, como disse em entrevista recente ao SBT.

O que movem essas expectativas em relação a Temer, o virtual presidente da República interino, são suas diferenças com a colega da aliança PT-PMDB. A mais vistosa delas é o trato. Dilma adota a arrogância e o destempero com seus subordinados. Temer é obsequioso, longe e perto dos microfones.

Há, no entanto, um traço determinante que distancia ambos. A política. Enquanto a ex-guerrilheira a despreza, seu provável substituto vive dela.

Lula tem couro grosso

Alavancado por uma popularidade recorde depois de oito anos no comando do país, Luiz Inácio Lula da Silva confiou demais em sua maestria. Ao convencer o PT e aliados de que a gestora poderia se transformar numa boa presidente da República, Lula equivocou-se.

Primeiro, por que Dilma é má gestora. Segundo por que, na vida pública, não são gestores que fazem a boa política, mas políticos que fazem a boa gestão. Irônico, portanto, que o mais habilidoso político brasileiro desde Getúlio Vargas tenha desprezado a política.

Entre os traços vitais que caracterizam políticos está o couro grosso. Como definem os veteranos, ele é indispensável sobretudo aos que se pretendem líderes. Ou enrijecem sua têmpera, ou veem solapada sua carreira.

Quem, entre mortais, aceitaria reconciliar-se com o detrator de sua filha. Em 1989, na primeira corrida presidencial depois da ditadura, Fernando Collor divulgou no horário eleitoral depoimento da ex-namorada de Lula, Miriam Cordeiro. No vídeo, ela acusava Lula de “me oferecer dinheiro para abortar”.

Vinte anos depois, Lurian, a filha de Lula e Miriam, diante de uma foto do pai abraçando Collor, reconheceu que “tem que ter estômago”. Lula justificou: “Não fui eu que elegi ele. (…) Eu tenho que receber”.

A política salvou FHC e Lula

Quando a máxima é ignorada o castigo pode tardar, mas não falha. Em 2005, Roberto Jefferson, expoente do PTB – agora, de volta à ribalta -, moveu-se pelas vísceras em vez dos neurônios.

O ódio figadal por José Dirceu tornou Jefferson o principal denunciante do Mensalão. Levou Dirceu, artífice eminente da chegada do PT ao poder, ao calabouço. Jeferson, porém, sucumbiu com o inimigo, e também foi preso.

Dilma, em seus cinco anos e meio de estrelato, não construiu pontes. Ao contrário, dinamitou-as. Quando ainda detinha poder, ignorou aliados. Mesmo próceres do petismo tinham dificuldade para conversar com a mandatária. Dilma desprezou a política como mediação de conflitos e interesses divergentes.

Também Lula e Fernando Henrique Cardoso enfrentaram gravíssimas intempéries durante seus mandatos. FHC, em 1997, foi confrontado com a denúncia de compra de votos de parlamentares para aprovar a emenda constitucional que permitiria sua reeleição.

Apesar das evidências, o Congresso cedeu à proposta e FHC ganhou o direito de disputar (e ganhar) mais quatro anos de mandato presidencial. Em 1999, em seu segundo mandato, a Câmara rejeitaria por 342 votos a 100 pedido de impeachment proposto pelo PT.

Em 2005 foi a vez de Lula deparar-se com o pior momento de seus dois mandatos presidenciais. Acossado pelas denúncias de compra sistemática de votos parlamentares, o Mensalão, Lula desceu ao mais baixo nível de popularidade em oito anos como presidente, ameaçando sua reeleição.

O forte apoio que detinha no Parlamento, mais do que a indefinição oposicionista, salvou-o do impeachment que se avizinhava. Nos dois casos, Lula e FHC valeram-se de suas habilidades políticas para evitar o naufrágio de seus mandatos.

Igualmente não foram gestores que protagonizaram importantes mudanças na vida pública brasileira. José Serra, economista, garantiu ao Brasil o reconhecimento mundial no combate ao vírus HIV. Pragmático, o então ministro da Saúde confiou a petistas o DST-AIDS, encarregado do programa.

Foi Lula, torneiro mecânico, que fez da inclusão social política perene de estado. Sua aguda sensibilidade política levou-o, em 2003, a confiar a economia do país a ortodoxos, enquanto tratava do essencial: distribuir renda.

Getúlio Vargas, advogado, Juscelino Kubitschek, médico, Itamar Franco, engenheiro. Há exemplos a mancheias.

Política para profissionais

Michel Temer não tem a verve de Lula ou FHC. Mas, diferente de sua virtual antecessora, gosta e vive da política. As longas tertúlias a que tem se dedicado no Palácio do Jaburu não são novidades em sua agenda. Tampouco parecem provocar-lhe desconforto.

É muito cedo para decretar o sucesso ou o fracasso da gestão Temer. Mas é certo que a presidência da República, caso o Senado confirme o afastamento de Dilma, voltará a ser administrada por um político.

Essa é, talvez, a mais urgente lição a assimilar. Gestores competentes são indispensáveis, mas, na vida pública, devem submeter-se à política. Com ela é possível evitar ainda que aventureiros, sem respaldo orgânico na sociedade, cheguem ao poder.

Afinal, a política é para profissionais, não para amadores. Foi ela que faltou a Dilma Rousseff. É ela que pode orientar Temer nesse hiato da vida brasileira que caberá a ele conduzir.

Loading Facebook Comments ...

Artigos relacionados

A ficção do juiz neutro


O teratológico episódio envolvendo mais uma tentativa de soltar Lula da prisão expôs aquele quase consenso popular que se verifica em conversa de boteco. Ser e parecer neutro é virtude incomum entre juízes. A rigor, a isenção é atributo inalcançável. Por humanos, juízes têm sentimentos, preferências e vicissitudes, bem como inclinações políticas, religiosas e filosóficas. Além disso, magistrados são pagos para interpretar leis. Fossem as leis inequívocas, não necessitariam de interpretação. Leis, como se sabe, são forjadas nos Parlamentos – noves fora o STF brasileiro, casa de legisladores bissextos. O Parlamento, por sua vez, é habitat dos políticos, autoridades declaradamente partidárias, portanto, parciais. Assim, a suposta neutralidade judiciária – aqui entendida como a equidistância de tudo e de todos – estriba-se num regramento parcial, antônimo de isenção. De volta à conversa de botequim, pau que nasce torto morre torto. Prazos ficcionais Aos que descreem em filósofos ébrios, bastaria um olhar sobre o funcionamento da Justiça. Nenhum mecanismo interna corporis evidencia mais a impossibilidade do juiz neutro do que os prazos. Sufetas, sabe-se, não têm prazos. Ou têm prazos ficcionais. Na prática, qualquer magistrado pode acelerar ou retardar um processo como bem lhe aprouver. O condão de ser célere ou procrastinador desnuda qualquer manto de neutralidade. Vejamos. O que dizer do juiz Luiz Fux, da Suprema Corte, que mantém há quase quatro anos trancada numa gaveta a decisão definitiva sobre o auxílio-moradia? A benesse, que atende a casta privilegiadíssima dos magistrados, já depenou o erário em mais de R$ 5 bilhões. Dinheiro farto para quem já o tem a rodo. O juiz Roberto Barroso, também do STF, proclamou que o aborto (proibido em nossa legislação) é legal até o terceiro mês de gestação – aparentemente dando vazão a convicções pessoais ou reclamos militantes. O voluntarismo legiferante foi de encontro à lei, […]

Ler mais

Série Eleições 2018: a campanha na rua


A campanha eleitoral, que vai de 16 de agosto a 6 de outubro, deve ser vista como um processo dinâmico, que começa em um ritmo e vai crescendo até a data da eleição. É a hora de entrar em campo. Se houver perda de fôlego na reta final, o candidato poderá perder espaço para os adversários. Na reta final não pode faltar dinheiro, material nem volume de campanha. As pessoas têm a tendência de deixar tudo para a última hora, inclusive a decisão do voto. Portanto, é vital para o sucesso nas eleições que a campanha cresça até o final sempre. O primeiro mês (agosto) é de afirmação da imagem do candidato, de ampliação do leque de apoios, de busca de espaços nos meios de comunicação e de consolidação da candidatura. Esta é a hora de visitar feiras, associações, igrejas, colégios, fábricas, sindicatos. É também a fase em que o candidato deve buscar os multiplicadores e formadores de opinião (líderes comunitários, religiosos, sindicais, jornalistas) para convencê-los das chances de vitória da candidatura, da viabilidade de suas propostas e da sua seriedade. Nesse período será exigido do candidato um contato mais qualificado com os líderes e formadores de opinião para que eles possam conhecer melhor o candidato e suas propostas. Nesta fase, o material de campanha deve ser denso, contendo um perfil do candidato e um detalhamento completo da plataforma, ideias, propostas e bandeiras da candidatura. O segundo mês (primeira quinzena de setembro) é o momento de reduzir as reuniões fechadas e partir para a ofensiva de rua, centrando os esforços na criação de fatos políticos que possam ser notícia e, principalmente, na massificação da campanha. Para tanto, o candidato deve distribuir panfletos para o público alvo, nas ruas, bairros, escolas, fábricas, repartições públicas e nas estações rodoviárias e de metrô, […]

Ler mais

Série Eleições 2018: propaganda eleitoral da campanha


A partir de 16 de agosto fica autorizada a propaganda eleitoral[1]. Ela tem a função de tornar o candidato e o seu número conhecidos, sempre associados a uma ideia, proposta ou bandeira de interesse da coletividade. Compreende a parte de imprensa e mídia (jornais, santinhos, cartazes, folhetos

Ler mais

Leniência com meliantes do erário pode conduzir o Brasil ao passado de impunidade


Desde que a Lava-Jato saiu de um posto de gasolina em Brasília e entrou sem bater em gabinetes de endinheirados houve mudança inédita na justiça brasiliana. Pela primeira vez, ricos e brancos corruptos foram condenados e presos. Com seu furor libertário, a 2ª turma do STF dá sinais de que vai na contramão da operação que escreveu a mais escandalosa crônica policial do século XXI. Ao libertarem uma penca de meliantes do erário, os juízes supremos podem levar o País a retroceder à impunidade histórica. O normal no Brasil sempre foi a impunidade para o andar de cima. Nos andares subjacentes, a justiça foi, e é, lépida pra prender e lerda para soltar. Basta um olhar sobre as masmorras de Cardozo. Mais de 40% dos presos são provisórios. Os ratos da Lava-Jato e o apartheid carcerário:http://blogdapoliticabrasileira.com.br/os-ratos-da-lava-jato-e-o-apartheid-carcerario/ Cárceres insalubres, sem os privilégios dos corruptos graúdos, são habitados majoritariamente por negros e pobres anônimos. Não significa que sejam inocentes, mas que deles foram subtraídos direitos elementares. Direitos que sobejam para os meliantes da Lava-Jato. Recursos à impunidade Para o brasileiro morador das periferias, basta um pontapé na porta para que a autoridade adentre lares desprovidos de foro privilegiado. Se o Brasileiro habitar bairros ilustres, a polícia, mais das vezes, precisará de uma autorização suprema. Sem a chancela judicial, as provas colhidas em lares grã-finos serão anuladas. Foi o entendimento da turma libertária da Suprema Corte. Casa de senador tem privilégios que a maioria não tem. Os mesmos sufetas defendem que os recursos protelatórios devem varar todas as instâncias do Judiciário. O que equivale ao recurso eterno, sinônimo de impunidade. Procuradores e juízes arrogantes são comuns na Lava-Jato. Seus excessos podem ser enquadrados como abuso de autoridade. [Semana começa com o fantasma da República dos Magistrados: http://blogdapoliticabrasileira.com.br/republica-de-magistrados/] Mais deletério ainda é a inclinação […]

Ler mais