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Eleição presidencial radicalizada em 2018?

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 O “Estadão” divulgou nessa semana o conteúdo de uma carta de 14 páginas escrita pelo ex-ministro José Dirceu (PT) quando ele ainda estava preso. Dirceu falou sobre diversos temas. Entre eles, fez uma avaliação sobre as eleições de 2018.

Alguns meios de comunicação interpretaram a carta de José Dirceu como um risco de “Venezualização” do Brasil. Porém, diferentemente de Venezuela, Cuba, Bolívia, etc, não há em nosso país uma correlação de forças favorável a um projeto de esquerda ortodoxo.

Então, o que estaria pretendo Dirceu com sua recomendação?

Primeiramente vale recordar que José Dirceu, mesmo após ter deixado de ser o homem-forte do governo Lula em 2005, na crise do mensalão, continuou tendo grande influência sobre os rumos do PT. Para quem não lembra, Dirceu foi um dos principais articuladores da estratégia “Lulinha paz e amor” da campanha vitoriosa de 2002, quando Lula moderou seu discurso para conquistar o centro e chegar ao Palácio do Planalto pela primeira vez.

Assim, se Dirceu está propondo um giro à esquerda do PT, muito provavelmente enxerga que a disputa presidencial de 2018 pode ter a radicalização como característica.

Aliás, não é por acaso que o próprio Lula está tentando politizar a Operação Lava Jato ao propor que o seu depoimento ao juiz Sérgio Moro, na próxima terça-feira (10), seja transmitido ao vivo. Também não é mera coincidência que o ex-presidente e o PT estejam mobilizando os movimentos sociais para irem até Curitiba (PR). Vale registrar que a tentativa de Lula em criar um espetáculo midiático, parecido como uma campanha eleitoral, tem sido respondida pelo Ministério Público Federal (MPF) no mesmo tom. Justamente por isso que que o depoimento do ex-presidente a Moro na próxima semana é cercado de tanta expectativa.

Outro sinal desse giro à esquerda tem sido emitido pelo PT nos eventos políticos promovidos pela sigla. Aos seus militantes o partido argumenta que caso questões jurídicas impeçam Lula de ser candidato, a “democracia estaria em risco”.

Esse tipo de manifestação pode levar a duas interpretações:

1) o PT teme a prisão de Lula;

2) caso esse cenário se concretize, o PT perderá único nome com densidade eleitoral para 2018. Por isso, o discurso se volta cada vez mais para a esquerda, questionando as decisões do Judiciário e até mesmo a democracia.

Pesquisa Datafolha

A recente pesquisa Datafolha sobre a sucessão presidencial do próximo ano trouxe alguns sinais sobre o risco dessa radicalização. Candidaturas com perfil de centro, mais moderadas, como, por exemplo o presidente Michel Temer (PMDB), o senador Aécio Neves (PSDB-MG) ou o governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP), estão bastante esvaziadas.

À esquerda, o espaço está sendo ocupado por Lula (PT). Hoje, quem desponta como “anti-Lula” é o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ), que vem crescendo e já está em segundo lugar. Outro nome em ascensão é o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), único tucano que apresenta força nesse momento para tirar votos Bolsonaro entre o eleitorado de elevada renda, escolaridade e localizado na região Sudeste.

Caso Bolsonaro ou Doria se consolidem como adversário de Lula, uma radicalização do embate eleitoral é praticamente inevitável, pois essas candidaturas possuem base em fatias do eleitorado totalmente antagônicas. Mesmo sem Lula na disputa, esse clima radicalizado pode se manter, principalmente se o candidato das forças mais à esquerda for o ex-ministro Ciro Gomes (PDT-CE).

A ex-senadora Marina Silva (REDE) também se beneficiaria da ausência de Lula na sucessão de 2018. Porém, em cenários de radicalização, o mercado eleitoral requer candidatos com perfil para o enfrentamento, o que não é o que caso Marina.

Ciro, principalmente se tiver o apoio de Lula e do PT, teria mais chances de representar a esquerda e o chamado Lulismo no segundo turno. Por isso que Ciro Gomes tem feito um discurso à esquerda, classificando o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) como um “golpe”, batendo forte no PMDB e no presidente Temer e também partindo para o ataque contra Doria.

A radicalização do clima político explica porque Lula segue discursando para o eleitorado de baixa renda e escolaridade, que emergiu socialmente em seu governo.

Direita busca a “anti-política”

Bolsonaro, por sua vez, não emite sinais que está disposto a moderar seu discurso conservador mais à direita. Aliás, segundo informação divulgada hoje pelo “Painel da Folha”, ele estaria trabalhando na criação do movimento “Muda Brasil” para ser candidato. Ou seja, Bolsonaro quer afastar a palavra partido de seu nome, explorando assim a rejeição a política tradicional.

Esse desejo de continuar com um discurso à direita também está expresso na estratégia de Doria, que flerta com o eleitor conservador ao chamar os sindicalistas de “vagabundos” e “bater” em Lula, sempre que tem oportunidade.

A combinação entre o combate a corrupção dominando fortemente a agenda, economia se recuperando lentamente, desemprego alto e a insegurança crescendo nas grandes metrópoles abre espaço para um embate entre as forças que representam o Lulismo contra a “anti-política”, que tende a construir um nome para surfar na onda conservadora, abraçando a bandeira da ética como pauta principal num cenário de crise dos grandes partidos políticos.

Nesse possível cenário, a possibilidade da próxima disputa presidencial ter a marca da radicalização deve ser considerada pelos agentes políticos, pois ao contrário de disputas anteriores pelo Palácio do Planalto, o eleitor demandará um candidato que demonstre a maior autenticidade possível e fale o que realmente pensa sobre os mais variados temas. Não é por acaso que Lula, Ciro, Bolsonaro e Doria demonstram, nessa momento, pouca disposição em caminhar em direção ao centro.

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