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Eleições francesas: quem perdeu e quem ganhou, de fato?

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Inicio pedindo desculpas aos meus amigos franceses por esta reflexão, justo no momento em que muitos se sentem felizes com a vitória de Macron ou aliviados com a derrota de Marine Le Pen nas eleições presidenciais deste sete de maio. Afinal, partilho muito pouco desta alegria.

Pergunto-me: o que é o mais importante nas eleições francesas? A vitória do centrista liberal, Emanuel Macron, ou o montante de votos que teve Marine Le Pen, a candidata de extrema direita do Front Nacional? Depende do ponto de vista; em termos imediatos, a vitória do Macron, mas, no longo prazo, talvez tenha sido o avanço do Front Nacional.

Uma boa pergunta é: quem de fato perdeu, nestas eleições? Todos falam que perderam os partidos tradicionais, republicanos e socialistas, assim como a extrema direita. Perdeu a esquerda, avança a direita. Será? É preciso não querer retirar da expressão eleitoral, que se passa em um momento dado, aquilo que normalmente ela não permite, como, por exemplo, ser o símbolo de mudanças estruturais. O que ocorre muito extraordinariamente.

Front Nacional dobrou seus votos

Quando se encerrou o primeiro turno das eleições francesas escutei os discursos dos candidatos. Confesso que tomei um susto. Se não soubesse que Marine Le Pen era a líder do Front Nacional teria apostado que era a candidata da esquerda. Da velha esquerda francesa, que resiste e sobrevive, embora não se saiba por quanto tempo. Suas palavras chaves, em tom populista, eram: Estado protetor, antiglobalização e candidata do povo contra o das elites, em referência a Macron. Este, ex-diretor de banco e ministro da economia. Qual líder político brasileiro de esquerda recusaria estes componentes de seu discurso?

O discurso de Benoît Hamon, candidato socialista, por sua vez, era de que a esquerda havia sofrido uma enorme derrota. Falso. A derrota flagrante foi do partido dele, o socialista, mas a esquerda, com seus cinco candidatos, teve 29% dos votos. Juntos, estariam em primeiro lugar no segundo turno.

Macron venceu, o que era esperado. A única divergência existente girava em torno do percentual da vitória. Com um consenso: o Front demonstrava um grande avanço desde as últimas eleições em que esteve no segundo turno, representado por Jean Marie Le Pen o pai da Marine. Naquela ocasião Chirac venceu com 82% e o Front teve pouco mais de 17%. Macron venceu, mas agora com 65,9% contra 34,1% do Front Nacional[1]. O Front Nacional dobrou seus votos. E, dependendo das condições podem ser os vitoriosos no próximo pleito.

Os grandes perdedores são de fato os republicanos, ou seja, os conservadores democráticos. Perdeu por teimosia, pois com o escândalo em que Fillon, com sua esposa, se envolveram, exigia uma mudança para outro candidato, no caso, Jupé. A esquerda perdeu por suas próprias divisões, mas também por não ter compreendido as transformações que o mundo conhece. E, pessoalmente, duvido que venha um dia a compreender.

Macron não terá apoio do Parlamento

Contudo, conhecido o resultado das eleições presidenciais a pergunta que não pode ser evitada é: Macron tem chance de mudar a França, cada vez mais a margem da dinâmica econômica e social contemporânea, e com isso afastar o risco de uma possível vitória do Front Nacional no próximo pleito? Pouca, muito pouca. Não tem estrutura partidária, e não deverá ter muitos adeptos no Parlamento, com as eleições nacionais em junho. Com isso, terá que realizar múltiplas alianças para governar, e fazer muitas concessões, que ameaça impedir-lhe de realizar as reformas necessárias, como fez a Alemanha. Ele é eleito não pelas suas virtudes ou propostas, mas porque a maioria dos franceses, ainda, não quer Le Pen.

A França que herda Macron é um país dividido e confuso, eivado de corporativismos antigos, sobretudo na esquerda, que impedem a modernização do País. Ademais, ele não tem propostas inovadoras, nem claras. Assim, periga ser um novo Hollande – de quem é mais próximo do que parece -, abrindo ainda mais o espaço para o crescimento do Front Nacional.

Aparentemente, as eleições não mudam muito o quadro partidário francês. E os problemas do País não parecem que conhecerão um caminho de saída. Enfim, as expectativas com a vitória do Macron deveriam ser menores do que o momento da alegria de muitos parece indicar.

[1]Resultado final Macron 65,9%, Le Pen 34,1%, 12,33% de brancos e nulos, 26% de abstencões.

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