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A guerra da comunicação

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As forças armadas japonesas invadiram o território norte-americano em 1942, logo depois do bombardeio de Pearl Harbour. Desembarcaram em duas pequenas ilhas, Kiska e Attu, situadas no arquipélago das Aleutas, mar de Bering. Elas ficam perto do Alasca, nas proximidades da fronteira com a Rússia e ao norte do mar do Japão. Provocação pura. Demonstração de força necessária naquele período em que os Estados Unidos se mostravam pouco preparados para enfrentar o conflito simultâneo no Pacífico e no Atlântico.

A guerra naquele fim de mundo, no extremo norte do planeta, levou a Marinha norte-americana a deslocar para a ilha de Adak, transformada em front de batalha, o consagrado cineasta John Huston, em setembro de 1942. Ele chegou lá uma semana após a estreia de Garras Amarelas, um thriller de espionagem com Humphrey Bogart, em Nova Iorque. A insólita presença de um cineasta daquele calibre numa ilha perdida perto do Polo Ártico demonstra a preocupação do comando militar norte-americano em documentar e vender bem a mensagem para justificar sua presença no conflito.

John Huston ganhou patente. Foi capitão de corveta e depois recebeu graduações mais importantes. Frank Capra realizou uma série de sete capítulos Why we fight (Por que lutamos). William Wyler, George Stevens, John Ford, entre outros, foram voluntários que se apresentaram às forças armadas para servir como documentaristas e produtores de conteúdo que explicassem as razões do conflito e porque ir à guerra contra alemães e japoneses. O soldado médio norte-americano tinha 18 ou 19 anos, vinha do interior, não entendia nada de política e muito menos de assuntos internacionais. Não conhecia o mundo. Era um caipira.

Necessário apresentá-lo aos alemães e a Hitler. Explicar o que era o nazismo. Também importante mostrar a ferocidade dos japoneses comandados por militares expansionistas e agressivos. O Japão, por volta de 1942, tinha conquistado parte da China e a maioria dos países do Pacífico. Suas tropas chegaram a bombardear o norte da Austrália. Os alemães conquistaram toda a Europa continental. E se preparavam para invadir a União Soviética e ameaçavam tirar a Inglaterra do mapa. O esforço de comunicação foi proporcional ao esforço de guerra.

Há um interessante livro na praça. Cinco voltaram, uma história de Hollywood na segunda guerra mundial, Mark Harris, editora Objetiva. Narra a história da gênese da política de comunicação das forças armadas norte-americanas, naturalmente sob a coordenação do presidente Franklin Roosevelt. É uma leitura apropriada para o momento atual do governo Temer. Ele recebeu a pesada herança deixada pela administração de Dilma Rousseff. O tempo é curto para reverter a tendência de queda da economia, fazer o país retomar o crescimento, reduzir os níveis de desemprego e abrir melhores perspectivas para os brasileiros.

Será necessário lutar em duas frentes. Uma é tradicional. Reduzir despesas, cobrar impostos e fazer a economia funcionar. O outro é criar um ambiente positivo para que o brasileiro volte a acreditar na retomada do desenvolvimento. O segundo quesito deve ser atingido por intermédio de políticas de comunicação específicas, voltadas para explicar ao cidadão a realidade das contas nacionais e os meios que serão utilizados para sanar problemas e sanear dívidas. O governo Temer não disse a que veio. Diante dos olhos dos brasileiros ainda não tomou posse. Passadas as eleições é razoável se mostrar por inteiro. Apontar metas e meios para atingi-las.

Os principais objetivos do governo são a reforma da previdência, que é tarefa para discussão de mais de um ano. O debate será longo. O documento básico, que constitui o projeto, já está pronto. Mas certamente será refeito, costurado e remendado no Congresso. Haverá mais uma tentativa de realizar reforma política, com a introdução de cláusula de barreira e a proibição de coligação nas eleições proporcionais. Se aprovados estes dois itens, a política brasileira seria reduzida a seis ou sete partidos. Um alívio.

Constam do cardápio de objetivos do governo concessões de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos. Além disso, a área econômica tentará atrair investimentos estrangeiros, porque os nacionais estão contingenciados pela operação lava-jato. Nada disso é fácil e o tempo é escasso. A indicação do diplomata Alexandre Parola é um avanço, mas não definitivo. O governo precisa definir prioridades e começar a governar. O governo Temer vai se iniciar, de fato, depois das eleições. A partir daí ele estará sozinho no palco. Pronto para receber vaias e aplausos.

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