politica

Temer: impopular sim, fraco, não

Imprimir

O plenário do Senado aprovou por 55 votos contra 13 a indicação de Alexandre de Moraes para assumir o cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal na vaga deixada pelo falecido Teori Zavascki. Uma votação simples, direta, objetiva. Rápida. Os senadores queriam curtir o carnaval em seus estados e dispensaram formalidades. O presidente Temer, no seu gabinete, comemorou mais uma importante vitória parlamentar.

Este é o detalhe. O presidente da República é um especialista na ação e observação do Congresso Nacional. Foi presidente da Câmara várias vezes, deputado federal de muitos mandatos, presidente do PMDB. Não é necessário passar os olhos pelo seu currículo para perceber que após Temer assumir suas funções no Planalto o governo passou a vencer todas as disputas no parlamento. Não perdeu nenhuma. A começar pelo impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, personagem amadora, inexperiente e perplexa diante de suas imensas responsabilidades.

Nos últimos dias, observadores nacionais e estrangeiros começaram a reportar indicadores de que a recessão terminou ou está perto de se encerrar. Os números de inflação são surpreendentes. Baixíssimos. A taxa de juros está em viés de baixa. A Bolsa de Valores, que costuma antecipar cenários, vive momento de euforia. Está em nível semelhante ao de seus melhores dias. O ministro Henrique Meirelles arriscou dizer que a recessão acabou. A recuperação já se iniciou, segundo ele.

A crise econômica estaria, assim, sendo superada. E o foi porque o governo conseguiu aprovar, até agora, o que quis no Congresso Nacional. Até o teto para gastos do governo transitou sem problemas. As negociações com os estados estão correndo rapidamente em Brasília e nas capitais dos estados falidos. Os investidores começam a pensar em voltar ao mercado, criar empregos e fazer a economia crescer porque os desatinos da política foram razoavelmente solucionados.

Os partidos de esquerda no Congresso já se relacionam com o governo. A denúncia de golpe ficou restrita a um bordão, que é acionado nos momentos mais tensos. A convivência entre os antagônicos passou a ser normal. Os radicais sempre perdem substância depois que o novo regime se instala. Danton perdeu a cabeça na revolução que ajudou a realizar. É dele o lema “audácia, sempre audácia”. A guilhotina desceu sobre seu pescoço. Robespierre também passou pela lâmina. No Brasil não há guilhotina em funcionamento. As punições na área da política são de outra ordem.

O presidente já anunciou as condições para que ministros citados na operação Lava Jato permaneçam em seu governo. Disse em voz alta e clara. Recado geral. O novo presidente do Senado, Eunício de Oliveira, contribui para acalmar os ânimos. Os radicais do antigo regime estão fora do tom. Não é por acaso que político experiente recorra à palavras chulas para atacar a possibilidade de mudança nos critérios do foro privilegiado. O que pode ameaçar este raro momento de tranquilidade do governo Temer é a república de Curitiba.

A delação dos executivos da Odebrecht deverá ser o mais sério problema do governo Temer neste início de 2017. Não será só dele. As delações vão respingar em nomes consagrados de vários partidos, uma vez que todos eles, em maior ou menor medida, trabalhavam com as generosas doações realizadas pela empreiteira. O suspense é geral. Por essa razão, o presidente já anunciou as condições para que acusados pelo Ministério Público permaneçam em seu governo. As boas notícias originárias na área econômica tendem, neste momento, acalmar a cena política.

É mudança significativa na estabilidade da atual administração. Temer viveu momentos de aflição, profundamente ameaçado de cair. Agora ele tem tempo, prazo e pode utilizar o relógio a seu favor. Não há emergência. Ao contrário, ele está cumprindo sua agenda reformista com tranquilidade porque possui maioria no Congresso. Mais de 80%. As maiorias são efêmeras, mas neste momento presidente tem todas as fichas do jogo. Se ele, de fato, não for candidato à reeleição poderá chegar ao final de seu mandato com impressionante autoridade.

O governo Temer é impopular, mas não é um governo fraco. As sucessivas votações demonstram que o Palácio do Planalto tomou conta do Congresso. Deve realizar as reformas tributária, previdenciária e política sem maiores embaraços. No caso da reforma política basta aprovar o fim das coligações nas eleições proporcionais e a cláusula de barreira para que as legendas de aluguel deixem de existir. Se isto for feito, ele dará enorme contribuição para que o país reencontre o caminho do crescimento. Mas ainda haverá o Tribunal Superior Eleitoral pelo caminho. Ele poderá tirar Temer do cargo. Mas essa é outra crise.

Loading Facebook Comments ...

Artigos relacionados

Série Eleições 2018: planejamento da campanha


O êxito de uma campanha eleitoral, qualquer que seja o porte do Estado, depende em boa parte de um bom planejamento. Planejar significa avaliar possibilidades, dimensionar os recursos e estabelecer metas.

Ler mais

Previdência complementar: prazo de migração acaba em julho de 2018


O servidor público que ingressou nos poderes Executivo e Legislativo Federal antes de 07 de maio de 2013, respectivamente, com ou sem direito à integralidade e paridade, tem até o dia 29 de julho de 2018 para decidir se deve ou não migrar para a previdência complementar, que é quando vence o prazo de adesão previsto no art. 92 da Lei 13.328/16. Muitas entidades sindicais já fizeram o dever de casa e produziram estudos – considerando o perfil dos servidores por elas representados – mostrando as vantagens e desvantagens ou os riscos e as oportunidade de eventual migração nesse período. Mas a maioria, por variadas razões, que vão desde questões ideológicas até omissão, ainda não prestou os devidos esclarecimentos aos servidores, para que estes decidam com segurança sobre a conveniência de migrar ou não para a previdência complementar. O servidor que tenha incertezas quanto ao alcance de uma nova reforma da previdência – já que não existe dúvidas que virão mudanças nas regras de concessão de aposentadoria nos regimes próprio e geral – e que não tomar a decisão dentro desse prazo legal, ficará permanentemente vinculado ao regime próprio e, portanto, sujeito às futuras mudanças previdenciárias, inclusive em relação ao tempo que contribuiu sobre a totalidade da remuneração. Um das motivações de quem já migrou foi o fato de que o tempo que contribuiu sobre a totalidade, segundo a lei em vigor, ficaria preservado e seria pago pela União, em forma de benefício especial e em valor proporcional ao tempo que contribuiu sobre a totalidade, constituindo-se em ato jurídico perfeito e, supostamente, protegido pelo direito adquirido. Esse benefício especial, no momento da aposentadoria, se somaria ao teto do regime geral – em valor de maio de 2018 fixado em R$ 5.645,80 – e ao que o servidor viesse a acumular […]

Ler mais

O mercado prefere Alckmin, mas ‘comprou’ Bolsonaro


Sondagem da XP Investimentos com 204 investidores institucionais mostra que o ex-capitão Jair Bolsonaro superou o ex-governador Geraldo Alckmin na corrida sucessória. Quem convive com os tubarões do mercado, como o InfoMoney, braço editorial da XP Investimentos, interpretou o resultado da seguinte forma: o arrivista boquirroto deixou de ser surpresa. http://www.infomoney.com.br/mercados/acoes-e-indices/noticia/7462345/tubaroes-mercado-dao-favoritismo-bolsonaro-projetam-segundo-turno-contra-ciro “O mercado comprou Bolsonaro”, disse um desses observadores, acostumado à visão pragmática de quem só pensa em amealhar mais e mais moeda. Para essa turba – que não é ignara, senão dinheiro farto não teria -, não interessa quem é o dono da bola, desde que a deixe jogar. Preocupação máxima Para quem não leu a sondagem, eis a síntese. Bolsonaro saltou de 29%, em abril, para 48%, em junho, na expectativa de quem será o vencedor do pleito presidencial de outubro próximo. Geraldo Alckmin, o preferido dos tubarões, caiu de 48% para 31%. Atente-se que estes percentuais não tratam de preferência, mas de prognóstico. Igualmente relevante, a avaliação para o segundo turno. Nada menos do que 85% dos tubarões acreditam que o candidato do PSL estará no segundo turno. E “se você tivesse que ficar comprado em ativos brasileiros, quão preocupado com eleições você estaria”, quis saber a XP. 51% estão muito preocupados, 35% preocupados. A preocupação, depreende-se das tabelas divulgadas, é pela vitória eventual de Fernando Haddad e Ciro Gomes. Duas perguntas exprimem a preferência dos rentistas pelo ex-governador de São Paulo. “Para onde vai a bolsa nas próximas semanas/meses se _________ ganhar?” é uma delas. A outra apenas substitui “bolsa” por “câmbio”. Nos dois casos, o nome de Alckmin é o que remonta ao cenário pós-eleitoral mais otimista. Bolsa em alta, dólar em queda. Bolsonaro vem aí. Se vai ganhar, nem o oráculo mercado é capaz de prever. Relacionado

Ler mais

Série Eleições 2018 – leitura crítica da mídia no processo eleitoral


Os meios de comunicação – jornal, revista, rádio, TV, blogs ou redes sociais via internet – cumprem um papel fundamental na democracia, de um lado, porque fiscalizam os agentes públicos e privados e, de outro, porque fazem a mediação entre sociedade e governo, além de promoverem o entretenimento. O ideal é que esse serviço de utilidade pública seja prestado com isenção e equilíbrio. Entretanto, por escassez de tempo ou para tornar a notícia mais atraente, quase sempre os veículos de comunicação tratam apenas de uma parte do problema ou fazem um recorte que favoreça o ponto de vista ou interesse do redator, do repórter, do editor, da direção ou do proprietário do veículo de comunicação. Nessa perspectiva, não existe imprensa ou veículo absolutamente imparcial. Em regras, os temas são mostrados sob determinada ótica, até porque ela é quem escolhe as fontes que deseja ouvir. A cobertura da mídia, de um modo geral, prioriza a crítica, a notícia negativa ou a polêmica. Entre veicular uma notícia positiva que não empolgue ou denunciar um escândalo, a segunda opção será priorizada. A imprensa, muitas vezes a serviço do establishment (classe dominante), influencia na divulgação da realidade e dos fatos ao selecionar suas fontes oficiais e institucionais e, principalmente, o modo de abordagem dos fatos que considera relevantes. Ao promover o recorte que lhes interessa, os meios de comunicação participam da construção da realidade e, muitas vezes, fazem com que a sociedade acolha como suas as prioridades da imprensa. A mídia, segundo o historiador estadunidense Bernard Cohen[1], influencia a estruturação do pensamento e, muitas vezes, organiza os fatos de um modo tal que, em lugar de ensinar as pessoas a refletirem, conduzem-nas sobre o que pensar. Como as pessoas agem pelo que leem ou escutam, principalmente nas rádios e televisões (e mais recentemente na […]

Ler mais