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A inquietante pergunta de Aécio Neves

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Numa entrevista aos jornalistas Julia Lindner e Caio Junqueira, do Estadão, em fevereiro, o senador Edison Lobão lançou um desafio. “Se alguém acha que a atividade política está tão ruim assim, ingresse na vida pública para tentar melhorá-la”, provocou.

Por se tratar de um político e, além disso, investigado por suspeita de corrupção na Operação Lava-Jato, nenhuma importância se deu ao repto. Como se legitimidade não tivesse o parlamentar que fez carreira e fortuna no Maranhão, um dos estados mais miseráveis do Brasil.

Vale recordar que Lobão foi eleito duas vezes deputado federal, uma vez governador e cinco vezes senador pelos eleitores maranhenses. Quer dizer, não chegou ao Congresso Nacional a pé.

O aparente desabafo encerra uma das questões de fundo mais relevantes que afloram no conturbado cenário que vivenciamos. Trata-se do desprestígio da política como mediadora de conflitos.

Descrédito este estribado na premissa de que todos os males se originam “em Brasília”, ou seja, na política. Tema inquietante abordado cada vez com mais frequência por aqueles que querem ir além dos vazamentos de procuradores.

Num outro momento, também recente, desta vez num bate-papo, o senador Aécio Neves formulou uma pergunta pertinente. “Haverá espaço para uma saída política?”, questionou, conforme o relato da jornalista Maria Lima, d’O Globo.

De acordo com seu raciocínio, referindo-se aos políticos, se “todo mundo é bandido” resta ao País buscar um “salvador da pátria”. Quer dizer, abdicar da política institucionalizada e partir para os voluntários da salvação nacional, tipos que a história registra aos borbotões.

O caráter de lamúria da pergunta de Aécio, pois mira a perspectiva de que ele próprio seja engolfado pela Lava-Jato, não retira sua conveniência. O momento de crise política e econômica pode ser o impulsionador dos ajustes que serão necessários quando o torvelinho amainar.

Afinal, de quanto tempo dispomos para encontrar alternativas? Até quando vamos presenciar o esgarçamento institucional para agir?

Como escreveu Machado de Assis, “questão prenhe de questões, que nos levariam longe…”. E que geram previsões desconcertantes.

Dados de uma pesquisa do Instituto Locomotiva/eCGlobal, divulgada pelo jornalista Gabriel Manzano, do Estadão, apontam para um divórcio entre política e cidadania. 51% dos entrevistados consideram que “as coisas estariam melhor se não existisse partido nenhum”, enquanto 84% dizem que o País “está no rumo errado”.

Na entrevista ao matutino, também com base em pesquisas, o titular do instituto, Renato Meirelles, reconhece que “a corrupção na vida brasileira é naturalizada”. Percepção que vai aos poucos se espraiando tanto entre espectadores quanto em atores da cena política.

“A classe política, para o bem ou para o mal, é de alguma maneira o reflexo da sociedade”, disse, cauteloso, o cientista político Marco Aurélio Nogueira à Veja. Menos diplomático, o ministro da Justiça e deputado federal Osmar Serraglio foi direto.

“Se eu puder sonegar, eu sonego. Se eu puder não pagar multa, eu não pago”, assim sintetizou o “pensamento” brasileiro aos jornalistas Ranier Bragon e Camila Mattoso, da Folha de S. Paulo.

Não se referiu o parlamentar à preferência nacional: se eu puder furar fila, eu furo. “Não sei como vai corrigir isso. É uma moral nacional”, resignou-se.

Se assim for, firma-se um círculo vicioso. O eleito, ao refletir os vícios do eleitor, anula-se para uma ação corretiva. O eleitor, que tem o condão de refazer o status quo, perpetua no eleito suas inconsistências.

Como complicador, esta encruzilhada do sistema representativo soergue-se em meio a um século que não se definiu, não assumiu uma cara própria. Perseveramos, academia e imprensa, na falta de paradigma melhor, a lidar com conceitos como a dicotomia esquerda x direita, forjada nos estertores do século XVIII.

Não há respostas fáceis. Provavelmente, elas ainda estão sendo elaboradas.

Mas não é descabido inferir que, se quisermos avançar, precisaremos enfrentar algum tipo de rompimento. Pode ser pelo jeito tradicional, com a intermediação da política, ou por meio de caminhos heterodoxos que perigam conduzir a desmandos e autoritarismos.

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