eleicoes-2018

Eleições 2018: todo mundo é refém

Imprimir

Para saber mais sobre a crise política, leia:
NÃO DEVEMOS PRECISAR DE HERÓIS – Murillo de Aragão
CAMPANHAS ELEITORAIS CARAS: NECESSIDADE OU NEGÓCIO? – Elimar Nascimento
NÃO HÁ FAVORITOS PARA 2018 – Carlos Bellini

Compartilhe pelo Whatsapp: http://bit.ly/2ttJIpI

Quem manda no Brasil hoje não é a Presidência, não é o Congresso, muito menos o Ministério Público ou o Supremo. A imprensa também não manda e, infelizmente, nem a sociedade. Quem manda no Brasil é o medo.

“Chegamos a um ponto, que ninguém mais se mexe e ninguém mais conversa”, disse um parlamentar governista. De fato, estamos perto de dar um nó cego em nós mesmos e paralisar o país, literalmente.

A esdrúxula e triste situação é de que todos são reféns de todos. O blefe do que um pode saber em relação ao outro é mais do que o suficiente para neutralizar o inimigo. Além disso, com o enfraquecimento das regras jurídicas, que estão dando um nó nelas mesmas, a publicação das falas, das interpretações e das opiniões, ganhou uma magnitude que, por si só, julga e exime em um universo paralelo do direito.

Lula, Moro e a encruzilhada do PSDB

Esse ambiente, obviamente, acaba por afetar, e muito, as composições e articulações que partidos e personagens estão fazendo para as eleições de 2018. No PT, por exemplo, Lula depende de Moro, que poderá indicia-lo, levando-o a ser julgado em primeira e segunda instância. Ainda no PT, as possibilidades além de Lula passam pela senadora Gleisi Hoffmann. Também com acusações nas costas, Gleisi depende mais da morosidade da Justiça do que de si mesma para ser candidata.

No PSDB, com a saída de Aécio do páreo, sobram Geraldo Alckmin e João Dória como possíveis candidatos pelo partido. Alckmin já teve pessoas próximas mencionadas em algumas delações, mas nada que o inviabilize. Pesa, no entanto, o fato de uma importante ala no PSDB enxergar em Dória uma capacidade maior de derrotar Lula, caso este seja o candidato do PT.

Como o prazo de desincompatibilização é de seis meses antes, o PSDB teria de tomar uma decisão arriscada: descompatibilizar Alckmin sem a certeza que Lula seria o candidato do PT? Colocar Alckmin como candidato mesmo sem a certeza que outros nomes ligados direta ou indiretamente estariam implicados em investigações?

A opção de desincompatibilizar tanto Alckmin quanto Dória criaria um nível de rivalidade desnecessário dentro do partido. Assim, o PSDB provavelmente teria de optar por um deles sem ainda ter todas as informações sobre a mesa, principalmente sobre Lula.

Já o PMDB dificilmente colocará um candidato próprio na disputa. A envergadura nacional do partido ainda o faz como um fortíssimo aliado. No entanto, apesar da tendência ser de uma aliança com o PSDB, a forma como os tucanos irão lidar com o PMDB nos próximos meses indicará se haverá clima para tal união. Caso não aconteça, o PMDB coordenaria uma coligação de partidos médios (talvez com o PSD?) ou lançaria candidato próprio.

Reféns do medo

As decisões não são mais próprias. Não dependem mais do sentimento de um político em ser candidato ou não. Depende muito do medo, das saídas que uns vão encontrar e das boias de salvação que outros terão para se agarrar. Escolher um vice, por exemplo, será tarefa do tipo “resta um” e não necessariamente de composição calculada do melhor resultado possível.

“Realmente, todos são reféns de todos. Não podemos mais optar por alianças e caminhos, estes nos serão colocados pelas circunstâncias.” É o que acredita um parlamentar tucano.

“Com Lula, somos um PT e dependemos das nossas forças, sem Lula, seremos um partido que dependerá exclusivamente do erro dos outros”, lamenta um petista desiludido.

O risco de todos serem reféns de todos é que a qualquer momento algo errado possa acontecer e todos se tornem vítimas, levando o Brasil realmente para as mãos de aventureiros.

Publicado na GQ Brasil em 23/06/2017

Loading Facebook Comments ...

Artigos relacionados

Para reflexão do potencial eleitor de Bolsonaro


Parcela do eleitorado – indignada com a situação do país, enfurecida com a corrupção e com a violência – tem sede de vingança. E esse sentimento aproxima essas pessoas do candidato Jair Messias Bolsonaro, que não faz outra coisa na vida a não ser reforçar esse sentimento de revolta nas pessoas. Quando um agente político identifica uma situação de desconforto e recomenda uma punição para os seus supostos responsáveis, esse gesto o aproxima das pessoas que estão incomodadas com a situação, fazendo-as imaginar que esse diagnóstico comum é suficiente para fazer dele (agente político) seu representante no Congresso ou no Poder Legislativo. O “messianismo”, ou a crença na vinda de um salvador ou redentor, caído do céu, imaculado e justiceiro, para libertar o povo de seus males, é um fato na cultura da Humanidade, mas, ao mesmo tempo, pode gerar a alienação dos indivíduos quanto a serem, eles mesmos, os agentes para a solução dos problemas identificados. O método adotado por Bolsonaro para sensibilizar seus apoiadores consiste em apontar problemas (criminalidade, corrupção, desemprego), indicar os supostos culpados (a esquerda, os comunistas, os malandros e corruptos), além de sugerir uma suposta solução (a punição, no caso a repressão, o encarceramento, o corte de direitos e serviços públicos, etc), numa construção que denota causa e efeito. Para potencializar e manter as pessoas presas a essa fórmula, utilizam as redes sociais para espalhar discórdia, mentiras e apontar fatos da realidade que chocam as pessoas. Existe um exército de mercenários, a serviço dos bolsonaristas, que alimenta, estimula e sustenta esse tipo de campanha permanente É o modo de comunicação troll, que provoca reações enfurecidas, estimula um comportamento de massas, manipula, maneja e molda as crenças e sentimentos das pessoas sem contar com o consentimento ou vontade consciente delas. Provoca os instintos mais primitivos do […]

Ler mais

Que tipo de propostas se pode esperar do próximo presidente?


  Em artigo anterior, sob o título “as três visões em disputa na eleição de 2018”, tratei dos desenhos de Estado que estão em disputa. Neste trato de medidas que poderão ser propostas pelos representantes dessas três visões: a) Estado de proteção social, b) Estado liberal-fiscal, e c) Estado penal. Ressalte-se, desde logo, que alguns candidatos podem combinar, em seus programas de governo, políticas públicos de caráter liberal-fiscal com medidas do Estado penal, mas é bem menos provável que um candidato que adote a visão de estado de proteção social possa compatibilizar seu programa com propostas de ordem liberal-fiscal, ainda que possa incorporar algumas medidas de reforço à segurança pública. Os candidatos do campo da esquerda e da centro-esquerda[1], que adotam a defesa do estado de proteção social, terão como prioridade recuperar a capacidade do Estado de ofertar serviços e proporcionar o acesso a bens públicos, especialmente aos mais vulneráveis. Isto não significa que deixarão de propor reformas estruturais, inclusive com impacto sobre direitos, como reforma da Previdência e do Estado, mas com  generosas regras de transição. Os pressupostos para a retomada do projeto de estado de proteção social, entretanto, são a revogação ou flexibilização da Emenda Constitucional 95, e a realização de reforma tributária que amplie a arrecadação, sem o que será impossível conter o aumento da desigualdade e evitar o colapso do Estado. Já os candidatos que defendem o Estado de perfil liberal-fiscal[2], além de manterem o congelamento do gasto público – admitindo a sua flexibilização somente se, e quando, forem aprovadas reformas profundas para reduzir o gasto social – descartam qualquer aumento de tributos, exceto do Imposto de Renda de pessoa física, aprofundando o ajuste apenas pelo lado da despesa, e notadamente na área social. A prioridade – ao lado da venda de ativos, mediante a alienação […]

Ler mais

Por trás do “choque liberal” do PT, o risco da censura à imprensa


Por trás da proposta aparentemente benfazeja de Fernando Haddad esconde-se um velho desejo do PT e um postulado de regimes autoritários: a censura da imprensa. Um dos possíveis postes de Lula às eleições presidenciais de 2018, o ex-prefeito propõe “regulamentação que aumente o pluralismo e a diversidade dos meios”. Em entrevista aos jornalistas Ricardo Mendonça e César Felício na segunda, 23 de julho, Haddad acrescentou que “o foco é evitar concentração da propriedade, sobretudo propriedade cruzada”. Buscando um verniz democrático à iniciativa, disse que “queremos dar um choque liberal”. https://www.valor.com.br/politica/5676907/haddad-propoe-punicao-tributaria-para-spread-alto Cuba não é pluralista Ampliar o número de proprietários dos meios de comunicação é, sim, saudável. A pluralidade incentiva a concorrência e inibe a manipulação. Ganha o jornalismo profissional e a liberdade de informação, que inexiste em modelos controlados pelo Estado. Afinal, quem vive do jornalismo não pode fazer como os blogs sujos, que divulgam apenas um lado da notícia e não abrem espaço ao contraditório. Na verdade, aqueles sites – que existem graças à internet e aos smartphones, invenções capitalistas – são ponta de lança da propaganda petista. Quem conhece o PT sabe, na verdade, que o alvo da “regulamentação” é o controle da grande imprensa. Menos cautelosos do que Haddad, militantes petistas acreditam que, caso o controle já existisse, a sigla ainda estaria no poder. Se o partido de Lula não o fez antes foi por pruridos democráticos de parte de suas lideranças e pela oposição da mídia profissional. Controlar a imprensa, no entanto, foi sempre um método de governos de esquerda. Basta ver os exemplos hodiernos da Venezuela e de Nicarágua. Sem falar da ditadura cubana, que leva ao paroxismo o controle da imprensa. Todos modelos defendidos pela chamada esquerda. Sem imprensa, sem democracia A imprensa livre, com todas as suas parcialidades e tendenciosidades, é condição sine […]

Ler mais

Os três papéis do Presidente da República


O presidente da República, no Brasil, personifica, em sua integralidade, o Poder Executivo, e exerce, simultaneamente, três papéis: 1) de Líder da Nação; 2) de Chefe de Estado; e 3) de Chefe de Governo. Os dois primeiros são mais simbólicos. O verdadeiro estadista é aquele que preenche essas três dimensões do cargo e o faz com o espírito republicano e que, apesar do enorme poder que o cargo lhe confere, não o exerce de forma autocrática ou irresponsável. Os principais atributos de um presidente da República são sua legitimidade e liderança, as duas condições que o habilitam a liderar a Nação, convencendo-a da importância, necessidade e conveniência de suas iniciativas, inclusive daquelas que eventualmente contrariem interesses. É o principal requisito para que conquiste e preserve a governabilidade. Isso é o que se chama de capital político. Nesse papel, de caráter mais simbólico que prático, o presidente deve ser percebido como exemplo na defesa e no respeito à Constituição, na condução da ordem interna e na promoção da paz social entre os brasileiros, bem como na defesa da soberania nacional e no zelo pela defesa do Estado Democrático de Direito. É tanto que no ato de sua posse, conforme previsto no art. 78 da Constituição Federal, o presidente é obrigado a prestar o juramento perante o Congresso Nacional, “prestando o compromisso de manter, defender e cumprir a Constituição, observar as leis, promover o bem geral do povo brasileiro, sustentar a união, a integridade a independência do Brasil”. O papel de Chefe de Estado, cuja principal missão é bem representar o País e o Povo Brasileiro perante governos estrangeiros e organismos internacionais, além de autoestima e confiança, tem como pressuposto acreditar no Brasil e defender sua inserção soberana no mundo globalizado, inclusive para efeito de disputa de mercados. Esse papel requer uma […]

Ler mais