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Mudando de assunto

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Antes que o assunto seja completamente esquecido e substituído pela eterna crise política nacional, vale a pena refletir sobre o tiroteio na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, ocorrido significativamente durante o Rock in Rio, grande festival de música. A metade da cidade se divertia, enquanto a outra parte se escondia das balas perdidas. E os políticos se desentendiam em Brasília.

Nos anos oitenta, no século passado, participei do seminário sobre jornalismo e estabilidade democrática, promovido pelo Centro Internacional de Estudos Superiores de Comunicação para América Latina, o chamado Ciespal.

A sede fica em Quito, no Equador. Naquela época a questão política era contaminada pelos estertores da guerra fria. No Brasil, os retornados pela anistia desejavam influir na produção do novo texto constitucional.

Aparecia cercado de objetivos nobres o Partido dos Trabalhadores, cujo líder era um metalúrgico barbudo, de voz rouca, conhecido como Lula. Em Quito, o debate político girou em torno de outro assunto: o narcotráfico.

A tese era de que, em prazo razoável, o principal adversário das democracias latino-americanas não seriam os comunistas nem as ditaduras militares. Mas os narcotraficantes que operam com grandes quantidades de dinheiro, capazes de corromper desde o guarda da esquina até as mais altas autoridades do país.

No Rio de Janeiro, os governadores, naquela época, fizeram pactos com traficantes, como faziam antes com bicheiros. Nada de assaltos ou constrangimentos aos turistas durante as grandes festas populares. Os governos tratam o assunto de maneira cosmética. Breves declarações, meia dúzia de soldados e agitação na frente das câmeras de televisão. Passada a emergência, tudo retorna à situação anterior.

Na Colômbia, as Forças Armadas Revolucionárias (FARC) não tomaram Bogotá porque não quiseram. Os guerrilheiros seriam obrigados a montar um sistema político. Isso é caro e ineficiente. Não rende nada.

Desejavam apenas manter abertos os caminhos para exportar cocaína para os Estados Unidos, o maior consumidor mundial do produto e outros mercados menores. Assim trabalharam durante décadas, protegendo o produtor e o tráfico com soldados e armas. O sul do país chegou a constituir uma extensa área sob controle da guerrilha. O governo federal não mandava lá.

O acordo entre as FARC e o governo da Colômbia é recentíssimo. O grupo guerrilheiro está em processo de desmobilizar tropas e devolver armas. Vai participar da política no país por intermédio de partidos legalmente organizados.

Mas o cultivo e a produção da cocaína continuam inalterados na Colômbia, no Peru e na Bolívia. O tráfico é organizado e hierarquizado. No Brasil, se a droga é destinada à exportação, percorre os estados do norte. Boa parte sai pelo Suriname tendo como destino a Europa. A novidade é que hoje parte da droga pode estar sendo produzida dentro do território brasileiro.

Quando o produto é encaminhado para os estados do sul, o objetivo principal é abastecer os mercados do Rio de Janeiro e de São Paulo. Quem conhece a cidade do Rio de Janeiro, e sabe onde fica a Rocinha, sabe que a favela está numa posição estratégica.

Ela abastece consumidores do Leblon, Ipanema, Gávea e atende toda a zona oeste, Barra da Tijuca. Ou seja, a posição é excepcional. Vale um tiroteio. Ainda mais no momento que se realiza o Rock in Rio, quando o consumo de drogas é excepcional. Exatamente como acontece no Carnaval. Só há traficante porque há demanda.

A polícia sabe onde a droga é vendida. O proprietário da boca de fumo nem sempre é favelado. O gerente da boca opera o negócio, passa parte dos lucros para o patrão. No alto desta cadeia de comércio está o produtor da cocaína.

São grupos poderosos comandados por jovens que cursaram as melhores universidades do mundo. São fluentes em vários idiomas. O mundo das drogas é muito rico e influente. A guerra do Afeganistão não terminou, até hoje, por causa do ópio que é largamente produzido naquele país. Entra nos Estados Unidos por todos os poros.

O governo do Rio de Janeiro, corrupto e desorganizado, nunca se preocupou de fato com as drogas. Ao contrário, caminhou ao lado. Quem vai à praia sente o cheiro de maconha. O Exército brasileiro não tem capacidade operacional para enfrentar essa bem armada e organizada guerrilha urbana.

A polícia carioca muito menos. O tráfico é, de fato, a principal ameaça à democracia brasileira. Se operar junto com alguns políticos ou empreiteiros brasileiros terá capacidade destruir qualquer regime no continente.

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