michel-temer

Retomando a pinguela?

Imprimir

Para saber mais sobre a crise política e sobre a delação da JBS contra Temer leia:
PERGUNTAS E RESPOSTAS SOBRE A CRISE POLÍTICA
O BRASIL TEM UMA AGENDA EM BUSCA DE UM LÍDER
TEMPOS ESTRANHOS

 

Que o governo Temer findou restam poucas dúvidas, dizem os analistas e jornalistas políticos. A incerteza é quanto ainda o presidente perdurará como zumbi no palácio do Jaburu. Um mês, seis meses? Ele tem forças para resistir, cuja base é o baixo clero da Câmara de Deputados e a caneta, que ainda pode distribuir algumas poucas regalias. Além de um grande propósito: parar a Lava Jato, o que lhe proporcionaria apoio no PSDB, PT e PP, os partidos mais implicados. Mas, segundo os mesmos analistas, não tem forças para governar, pelo menos em função dos últimos acontecimentos. Por isso findou, e a pá de cal derradeira tem um dono: Loures, com sua delação, que não deve demorar. A troca de cadeiras ministeriais no domingo foi um sinal para o amigo segurar as pontas, pois continua com foro privilegiado e mais um aliado.

Compartilhe no whatsapp: http://bit.ly/2rdc3NA

Para o País não ficar sangrando meses, com Temer resistindo contra tudo e todos, e a economia voltando a degringolar, seria necessário contar com o apoio do Judiciário, que deve ser suficientemente rápido para votar. Primeiro o TSE e, em seguida, o STF, se Temer recorrer. O problema aqui é que o presidente tem aliados no interior dessas cortes. E um simples pedido de vista pode durar semanas. Provavelmente será o terceiro votante. A mídia deve entrar forte, perscrutando a vida do infeliz. Não é qualquer um que aguenta este tranco.

E, se isso ocorrer, teremos um prolongamento de no mínimo dois meses, pois a votação poderá ser protelada para julho ou agosto. E mais outros dois meses no STF? Tempo que o Temer pensa ser necessário para mostrar que a economia está nos trilhos e a recessão é passado. E com isso ganhar o apoio necessário para persistir no poder.

Oposição cresce e aliados desembarcam

De toda forma, a oposição cresceu no Congresso. E irá utilizar de todos os recursos para impedir o andamento da pauta governamental, particularmente das reformas. PPS e PSB já desembarcaram do governo. PSDB e DEM se preparam para fazer o mesmo, em dependência da decisão do TSE em 6 de junho, que poderá ser em julho ou agosto. Se ocorrer os seus desembarques virão outros. Assim, Temer, que já perdeu a opinião pública, a mídia e o apoio do empresariado, poderá ficar sem base no Parlamento. Será desossado, sobretudo se a decisão do TSE lhe for desfavorável ou a delação do Loures se concretizar. Dois fatores que podem acelerar o desembarque dos partidos aliados.

O PSDB, que é o fiel da balança, como no governo Dilma era o PMDB, prepara um desembarque organizado. Por isso ainda não o fez, dizem os seus próceres. Necessitam do apoio de parte do PMDB, pois sabem que sem este apoio derruba o Temer, mas não governa. E suas chances em 2018 encontram-se na capacidade de dar continuidade às reformas, pelo menos a trabalhista, a fiscal e a política, e abrir um grande debate sobre a Previdenciária, e com isso fazer o País retomar o crescimento e recuar o desemprego. Tirar, literalmente, o País do buraco. Porém, essa decisão depende de algumas variáveis: a luta interna, a capacidade de resistência do Temer, a decisão do TSE e manifestação de humor da opinião pública, nas ruas e na mídia.

Talvez, a frente que se organiza com o PSDB-PMDB se desenhe mais robusta, garantindo a queda do Temer. Nesta rota deverão prevalecer as eleições indiretas.

Quem será o sucessor?

Nesse caso, não se sabe quem será o sucessor de Temer, mas sabe-se que deverá ter trânsito entre os grandes partidos como PSDB, PMDB e PP, além de parlamentares de outros partidos, para se obter uma maioria tranquila. O ideal é que não tivesse nenhuma relação com a Lava Jato ou similar, e se pronunciasse, imediatamente, ausente do pleito de 2018.

Se ocorrer a queda do Presidente as tarefas serão igualmente árduas, para quem assumir a sucessão de Temer numa perspectiva progressista: assegurar o funcionamento da Lava Jato, garantir o pleno funcionamento da democracia, continuar o movimento das reformas com mais participação, conduzir as próximas eleições e blindar a economia. Se o sucessor for o Tasso Jereissati terá que ter um vice como homem de confiança e bom negociador, um político de bom trânsito naqueles partidos em que ele tem dificuldades, na medida em que sendo do PSDB encontrará resistências, sobretudo junto ao PT e seus aliados, e mesmo no interior do PMDB. O ideal, aliás, é o vice não ser do PMDB, pois perderá em legitimidade.

Porém, o vencedor pode ser o Rodrigo Maia, na medida em que pertence a casa que tem a maioria dos votantes, tem boas relações com o pessoal do Temer e com o baixo clero. O vice viria do Senado, provavelmente do PMDB. A velha aliança dos anos 1980, de Sarney. Nesse caso, o governo será outro. Talvez com mais robustez parlamentar e sujeito a maiores erros, e repúdio das ruas. Teremos um Brasil, sem dúvida, muito turbulento.

A sorte está lançada. Se não aparecer nenhum doido a mais, como tem sido de costume, ultimamente, poderemos ter um novo começo. Contudo, assegurará a retomada do crescimento econômico que todos desejam? É duvidoso.

 

Loading Facebook Comments ...

Artigos relacionados

Para reflexão do potencial eleitor de Bolsonaro


Parcela do eleitorado – indignada com a situação do país, enfurecida com a corrupção e com a violência – tem sede de vingança. E esse sentimento aproxima essas pessoas do candidato Jair Messias Bolsonaro, que não faz outra coisa na vida a não ser reforçar esse sentimento de revolta nas pessoas. Quando um agente político identifica uma situação de desconforto e recomenda uma punição para os seus supostos responsáveis, esse gesto o aproxima das pessoas que estão incomodadas com a situação, fazendo-as imaginar que esse diagnóstico comum é suficiente para fazer dele (agente político) seu representante no Congresso ou no Poder Legislativo. O “messianismo”, ou a crença na vinda de um salvador ou redentor, caído do céu, imaculado e justiceiro, para libertar o povo de seus males, é um fato na cultura da Humanidade, mas, ao mesmo tempo, pode gerar a alienação dos indivíduos quanto a serem, eles mesmos, os agentes para a solução dos problemas identificados. O método adotado por Bolsonaro para sensibilizar seus apoiadores consiste em apontar problemas (criminalidade, corrupção, desemprego), indicar os supostos culpados (a esquerda, os comunistas, os malandros e corruptos), além de sugerir uma suposta solução (a punição, no caso a repressão, o encarceramento, o corte de direitos e serviços públicos, etc), numa construção que denota causa e efeito. Para potencializar e manter as pessoas presas a essa fórmula, utilizam as redes sociais para espalhar discórdia, mentiras e apontar fatos da realidade que chocam as pessoas. Existe um exército de mercenários, a serviço dos bolsonaristas, que alimenta, estimula e sustenta esse tipo de campanha permanente É o modo de comunicação troll, que provoca reações enfurecidas, estimula um comportamento de massas, manipula, maneja e molda as crenças e sentimentos das pessoas sem contar com o consentimento ou vontade consciente delas. Provoca os instintos mais primitivos do […]

Ler mais

Que tipo de propostas se pode esperar do próximo presidente?


  Em artigo anterior, sob o título “as três visões em disputa na eleição de 2018”, tratei dos desenhos de Estado que estão em disputa. Neste trato de medidas que poderão ser propostas pelos representantes dessas três visões: a) Estado de proteção social, b) Estado liberal-fiscal, e c) Estado penal. Ressalte-se, desde logo, que alguns candidatos podem combinar, em seus programas de governo, políticas públicos de caráter liberal-fiscal com medidas do Estado penal, mas é bem menos provável que um candidato que adote a visão de estado de proteção social possa compatibilizar seu programa com propostas de ordem liberal-fiscal, ainda que possa incorporar algumas medidas de reforço à segurança pública. Os candidatos do campo da esquerda e da centro-esquerda[1], que adotam a defesa do estado de proteção social, terão como prioridade recuperar a capacidade do Estado de ofertar serviços e proporcionar o acesso a bens públicos, especialmente aos mais vulneráveis. Isto não significa que deixarão de propor reformas estruturais, inclusive com impacto sobre direitos, como reforma da Previdência e do Estado, mas com  generosas regras de transição. Os pressupostos para a retomada do projeto de estado de proteção social, entretanto, são a revogação ou flexibilização da Emenda Constitucional 95, e a realização de reforma tributária que amplie a arrecadação, sem o que será impossível conter o aumento da desigualdade e evitar o colapso do Estado. Já os candidatos que defendem o Estado de perfil liberal-fiscal[2], além de manterem o congelamento do gasto público – admitindo a sua flexibilização somente se, e quando, forem aprovadas reformas profundas para reduzir o gasto social – descartam qualquer aumento de tributos, exceto do Imposto de Renda de pessoa física, aprofundando o ajuste apenas pelo lado da despesa, e notadamente na área social. A prioridade – ao lado da venda de ativos, mediante a alienação […]

Ler mais

Por trás do “choque liberal” do PT, o risco da censura à imprensa


Por trás da proposta aparentemente benfazeja de Fernando Haddad esconde-se um velho desejo do PT e um postulado de regimes autoritários: a censura da imprensa. Um dos possíveis postes de Lula às eleições presidenciais de 2018, o ex-prefeito propõe “regulamentação que aumente o pluralismo e a diversidade dos meios”. Em entrevista aos jornalistas Ricardo Mendonça e César Felício na segunda, 23 de julho, Haddad acrescentou que “o foco é evitar concentração da propriedade, sobretudo propriedade cruzada”. Buscando um verniz democrático à iniciativa, disse que “queremos dar um choque liberal”. https://www.valor.com.br/politica/5676907/haddad-propoe-punicao-tributaria-para-spread-alto Cuba não é pluralista Ampliar o número de proprietários dos meios de comunicação é, sim, saudável. A pluralidade incentiva a concorrência e inibe a manipulação. Ganha o jornalismo profissional e a liberdade de informação, que inexiste em modelos controlados pelo Estado. Afinal, quem vive do jornalismo não pode fazer como os blogs sujos, que divulgam apenas um lado da notícia e não abrem espaço ao contraditório. Na verdade, aqueles sites – que existem graças à internet e aos smartphones, invenções capitalistas – são ponta de lança da propaganda petista. Quem conhece o PT sabe, na verdade, que o alvo da “regulamentação” é o controle da grande imprensa. Menos cautelosos do que Haddad, militantes petistas acreditam que, caso o controle já existisse, a sigla ainda estaria no poder. Se o partido de Lula não o fez antes foi por pruridos democráticos de parte de suas lideranças e pela oposição da mídia profissional. Controlar a imprensa, no entanto, foi sempre um método de governos de esquerda. Basta ver os exemplos hodiernos da Venezuela e de Nicarágua. Sem falar da ditadura cubana, que leva ao paroxismo o controle da imprensa. Todos modelos defendidos pela chamada esquerda. Sem imprensa, sem democracia A imprensa livre, com todas as suas parcialidades e tendenciosidades, é condição sine […]

Ler mais

Os três papéis do Presidente da República


O presidente da República, no Brasil, personifica, em sua integralidade, o Poder Executivo, e exerce, simultaneamente, três papéis: 1) de Líder da Nação; 2) de Chefe de Estado; e 3) de Chefe de Governo. Os dois primeiros são mais simbólicos. O verdadeiro estadista é aquele que preenche essas três dimensões do cargo e o faz com o espírito republicano e que, apesar do enorme poder que o cargo lhe confere, não o exerce de forma autocrática ou irresponsável. Os principais atributos de um presidente da República são sua legitimidade e liderança, as duas condições que o habilitam a liderar a Nação, convencendo-a da importância, necessidade e conveniência de suas iniciativas, inclusive daquelas que eventualmente contrariem interesses. É o principal requisito para que conquiste e preserve a governabilidade. Isso é o que se chama de capital político. Nesse papel, de caráter mais simbólico que prático, o presidente deve ser percebido como exemplo na defesa e no respeito à Constituição, na condução da ordem interna e na promoção da paz social entre os brasileiros, bem como na defesa da soberania nacional e no zelo pela defesa do Estado Democrático de Direito. É tanto que no ato de sua posse, conforme previsto no art. 78 da Constituição Federal, o presidente é obrigado a prestar o juramento perante o Congresso Nacional, “prestando o compromisso de manter, defender e cumprir a Constituição, observar as leis, promover o bem geral do povo brasileiro, sustentar a união, a integridade a independência do Brasil”. O papel de Chefe de Estado, cuja principal missão é bem representar o País e o Povo Brasileiro perante governos estrangeiros e organismos internacionais, além de autoestima e confiança, tem como pressuposto acreditar no Brasil e defender sua inserção soberana no mundo globalizado, inclusive para efeito de disputa de mercados. Esse papel requer uma […]

Ler mais