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A esquerda já entendeu a urgência da Reforma da Previdência (na Grécia)

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Os anos de 2015 e 2016 foram particularmente complicados para o governo e os cidadãos gregos. Com uma grave crise fiscal, o partido de esquerda no poder, o Syriza, viu-se obrigado a apresentar um pacote de reforma Trabalhista e da Previdência.

Para muitos, o Syriza, que representava os sindicatos e seus “intelectuais de esquerda”, estava não só traindo os ideais daqueles que os apoiavam, mas também todo o povo grego. No campo da reforma da Previdência, foi feito um corte de 10% no valor das pensões dos aposentados que ainda não haviam chegado à nova idade estipulada para a aposentadoria: 67 anos. Como resposta, grupos de esquerda que representam os trabalhadores rurais decidiram bloquear as principais vias de acesso a Atenas. Buscando amenizar, o parlamento grego anunciou que todos seus parlamentares sofreriam um corte de 10% nos salários.

Syriza x PT

O Syriza foi considerado, muitas vezes, mais radical do que o PT. A comunicação entre os dois partidos existiu, dentro de uma lógica de cooperação entre os partidos de esquerda no mundo. No entanto, o Syriza, com esquerdistas relativamente mais preparados na própria ideologia que seguem, perceberam que os problemas de pensão e trabalhistas eram insustentáveis. Não havia mais como praticar bondades para com a população, por meio de créditos subsidiados com o dinheiro drenado do Banco Central Europeu, em Frankfurt.

No Brasil, e principalmente entre integrantes da dita esquerda, as questões previdenciárias e trabalhistas ainda não são vistas como um problema. Para Guilherme Boulos, ironicamente descendente de gregos, e representante da esquerda perante grupos de estudantes e do MTST, qualquer reforma que mude os benefícios que faziam sentido em uma época que não existe mais é considerada um ataque às conquistas do povo.

Se tivesse ido morar na Grécia de cinco anos atrás, ele seria membro do Syriza e hoje teria sido expulso ou adaptado às mudanças de atitude que o partido absorveu quando confrontado com a realidade.

O custo político de uma reforma tão controversa quanto a previdenciária é enorme

E ela não veio sem traumas na Grécia, onde o número de suicídios cresceu após a aprovação das mudanças. Na prática, existem duas possibilidades para que se consiga realizá-las:

  1. Por um governo de popularidade altíssima e com uma base aliada minimamente estável e amplamente majoritária.
    Essa era a condição que o ex-presidente Lula teve em seus dois mandatos e Dilma no primeiro. Neste caso, a perda de parte da popularidade seria incorporada aos custos da reforma e a lealdade seria exigida ao máximo da base aliada. Poderia trazer riscos para uma eventual transição política, pois a população reagiria negativamente. Como os sindicatos são umbilicalmente ligados ao PT, este pôs imensa pressão sobre o Executivo para que a reforma não fosse adiante.
  2. Por um governo de popularidade baixa sem interesse em reeleição.
    Quando a popularidade já está no mínimo possível, não há temor em perdê-la mais. Como se trata de um governo de transição, o presidente Michel Temer não precisa alterar os rumos das propostas para adequar-se a uma manutenção de popularidade ou viabilização de reeleição.
    Qualquer cenário intermediário inviabiliza uma proposta dessa magnitude – o preço político é muito alto. Sendo imediatista, o brasileiro não consegue compreender a perda de um benefício hoje para recuperar e garantir sua manutenção no futuro. O pensamento do “amanhã é um novo dia e vamos nos virar” não pode fazer parte das grandes decisões nacionais.

Resultado das reformas virá com o tempo

“A proposta será aprovada, todos os tipos de ataques serão desferidos contra o governo, mas a comprovação de que foi essencialmente importante só virá em dez anos”, diz um técnico da equipe econômica.

Até mesmo na oposição há quem compreenda que a situação é delicada. Visão de um parlamentar petista: “Sabemos que a situação previdenciária é muito ruim. No entanto, temos um papel a cumprir. Trabalhadores querem ser defendidos hoje e não amanhã”. Apesar dessa observação, a grande maioria ainda nega que haja qualquer dificuldade. “Não há problema previdenciário, basta reordenar as receitas e garantir a não-utilização das contribuições em outras áreas do governo”, diz um parlamentar do PCdoB.

Hoje, o déficit do INSS é de R$ 150 bilhões de reais; o rombo fechará o ano em R$ 180 bilhões. Ao ser estabelecida em 65 anos, a idade mínima de aposentadoria incluiria o Brasil entre os vários países que adotam essa idade. Além disso, a mudança de tempo de serviço de 15 anos para 25 nos indexa à “normalidade” de tempo de contribuição. Uma contribuição de 70% após os 25 anos de trabalho faz mais: empurra o Brasil para a parte de cima da lista dos países que melhor beneficiam o trabalhador após anos de serviço.

Sem a reforma, o país quebra

“Sem a reforma, o país quebra”, diz o ministro do Planejamento Dyogo Oliveira. De fato, era o que estava ocorrendo na Grécia, onde o Syriza, de extrema esquerda, produziu uma reforma ainda mais profunda. Apesar da confiança na sua aprovação, ainda há no governo quem considere que falta muito para ganhar o jogo. Alguns falam de aliados silenciosos, outros criticam os problemas de comunicação.

De fato, os dois problemas são reais: o governo precisa de mais gente colocando a cara a tapa para defender a reforma e deixar mais claro para a população o que vai ocorrer sem ela.
A Grécia chegou ao limite do problema. Lá, até um partido mais preparado e completo ideologicamente do que o PT foi capaz de perceber que o mundo muda e que reformas dolorosas garantem um futuro habitável. Aqui, podemos nos meter em maus lençois em uma década, por erros processuais e de compreensão do quanto é importante mudar para seguir em frente.

Publicado na GQ em 4/5/2017

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