brasil-politica

De Tancredo a Aécio

Imprimir

A nova república, assim batizada por Tancredo Neves logo após sua vitória no Colégio Eleitoral, em 1985, chegou ao fim nos últimos dias. A marca mais significativa destes tempos é a presença do senador Aécio Neves na lista de políticos que se locupletaram com dinheiro de origem duvidosa.

Entre Tancredo e Aécio se esvaiu a proposta de um novo Brasil. Foram fugazes 32 anos, período no qual houve um presidente acidental, um populista caçador de marajás, um presidente eventual, no estilo forrest gump, um scholar da melhor qualificação, um líder trabalhista e uma mulher que não representava nada além dela mesma.

O resultado dessa aventura política aparece todos os dias nos jornais. O país transformou-se em campeão mundial de corrupção. Bateu vários recordes. Superou as melhores marcas africanas. Comprovou ter pessoal altamente qualificado para operar em mercados financeiros sofisticados.

Doleiros de alto coturno não se intimidaram, abriram bancos em diversas partes do mundo e trabalharam com desenvoltura em países desenvolvidos. Só não operaram dentro dos Estados Unidos. Fizeram suas transações majoritariamente em euros.

É claro que teria que haver um Geddel Vieira de Lima para colocar no apartamento em Salvador, cidade onde ele mora, malas e caixas de dinheiro vivo. Um total de R$ 51 milhões. É a realização de fixação infantil ou a versão baiana do Tio Patinhas, que visita seus bens apenas para brincar com a riqueza.

Perdeu muito porque se a fortuna estivesse depositada em algum banco deveria render por baixo algo como R$ 500 mil por mês. No entanto, mais vale um gosto que seis vinténs. Freud explica. E as práticas paroquiais também.

Os irmãos Fri Boi também se perderam na fronteira do paroquial. Já tinham obtido tudo que poderiam ter. A eles cabia apenas ficar calado. Não dizer nada. O Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, nos seus delírios de poder, já tinha ultrapassado a linha da sensatez.

Mas, depois de algumas doses de uísque, eles abriram a boca e falaram o que não devia. E por obra de alguma mão interessada a autodelação foi parar no processo. O procurador geral foi obrigado a realizar manobras retóricas para se desdizer e desfazer tudo o que realizou desde maio deste ano. E ainda tentar manter como válidas as informações obtidas pelos profissionais de Anápolis.

O cenário que se colocou diante dos brasileiros é de uma clareza capaz de ser percebida até por olhos menos sensíveis. A política brasileira é intrínseca e absolutamente corrupta. O Partido dos Trabalhadores, no governo, inaugurou a fase de comprar votos no Congresso.

Iniciou o processo de convivência financeira com parlamentares. As empreiteiras descobriram que era possível adquirir projetos de lei e até medidas provisórias. E também convocar e desconvocar pessoas para depor em comissão de inquérito no Congresso Nacional.

O exercício da política desapareceu. Os partidos perderam sua identidade e sua vocação. Eles deixaram de ter qualquer preocupação ideológica. Foram transformados em balcão de negócios. Não é por acaso que o centro da política nacional seja hoje o Supremo Tribunal Federal. O exercício saudável do debate ideológico ocorre hoje no plenário da mais alta corte brasileira.

Essa é a fotografia. O prestígio dos políticos está no chão. A nova denúncia de Rodrigo Janot chove a mesma chuva – corrupção. Não há nenhuma novidade. Era medida esperada de um procurador que está em final de mandato. As luzes estão se apagando para ele. Vai descer do palco e retornar à planície.

Os números da economia no governo Temer são extremamente positivos. Se houvesse mais confiança, os investidores poderiam descarregar investimentos. Mas quem é capaz de antecipar hoje o Brasil que sairá das eleições de 2018? O país está praticamente a um ano da eleição. E não existem nem candidatos efetivos. Existem planos, projetos e sonhos. Mas nada definido e seguro.

E, por último, o sistema financeiro, muito bem organizado, tem conseguido ficar à margem, apesar dos milhões de dólares que vão e vem do exterior sem controle, fiscalização ou algo semelhante. A nova República conseguiu a proeza de em 32 anos piorar o Brasil, apesar das boas intenções.

A esquerda perdeu a chance de ter perfil europeu semelhante ao socialismo da reconstrução da Espanha e Portugal. Seu comando está preso ou processo. O sonho acabou. O desafio de agora é começar de novo, com outra geração e ideais do século 21.

Loading Facebook Comments ...

Artigos relacionados

Que tipo de propostas se pode esperar do próximo presidente?


  Em artigo anterior, sob o título “as três visões em disputa na eleição de 2018”, tratei dos desenhos de Estado que estão em disputa. Neste trato de medidas que poderão ser propostas pelos representantes dessas três visões: a) Estado de proteção social, b) Estado liberal-fiscal, e c) Estado penal. Ressalte-se, desde logo, que alguns candidatos podem combinar, em seus programas de governo, políticas públicos de caráter liberal-fiscal com medidas do Estado penal, mas é bem menos provável que um candidato que adote a visão de estado de proteção social possa compatibilizar seu programa com propostas de ordem liberal-fiscal, ainda que possa incorporar algumas medidas de reforço à segurança pública. Os candidatos do campo da esquerda e da centro-esquerda[1], que adotam a defesa do estado de proteção social, terão como prioridade recuperar a capacidade do Estado de ofertar serviços e proporcionar o acesso a bens públicos, especialmente aos mais vulneráveis. Isto não significa que deixarão de propor reformas estruturais, inclusive com impacto sobre direitos, como reforma da Previdência e do Estado, mas com  generosas regras de transição. Os pressupostos para a retomada do projeto de estado de proteção social, entretanto, são a revogação ou flexibilização da Emenda Constitucional 95, e a realização de reforma tributária que amplie a arrecadação, sem o que será impossível conter o aumento da desigualdade e evitar o colapso do Estado. Já os candidatos que defendem o Estado de perfil liberal-fiscal[2], além de manterem o congelamento do gasto público – admitindo a sua flexibilização somente se, e quando, forem aprovadas reformas profundas para reduzir o gasto social – descartam qualquer aumento de tributos, exceto do Imposto de Renda de pessoa física, aprofundando o ajuste apenas pelo lado da despesa, e notadamente na área social. A prioridade – ao lado da venda de ativos, mediante a alienação […]

Ler mais

Por trás do “choque liberal” do PT, o risco da censura à imprensa


Por trás da proposta aparentemente benfazeja de Fernando Haddad esconde-se um velho desejo do PT e um postulado de regimes autoritários: a censura da imprensa. Um dos possíveis postes de Lula às eleições presidenciais de 2018, o ex-prefeito propõe “regulamentação que aumente o pluralismo e a diversidade dos meios”. Em entrevista aos jornalistas Ricardo Mendonça e César Felício na segunda, 23 de julho, Haddad acrescentou que “o foco é evitar concentração da propriedade, sobretudo propriedade cruzada”. Buscando um verniz democrático à iniciativa, disse que “queremos dar um choque liberal”. https://www.valor.com.br/politica/5676907/haddad-propoe-punicao-tributaria-para-spread-alto Cuba não é pluralista Ampliar o número de proprietários dos meios de comunicação é, sim, saudável. A pluralidade incentiva a concorrência e inibe a manipulação. Ganha o jornalismo profissional e a liberdade de informação, que inexiste em modelos controlados pelo Estado. Afinal, quem vive do jornalismo não pode fazer como os blogs sujos, que divulgam apenas um lado da notícia e não abrem espaço ao contraditório. Na verdade, aqueles sites – que existem graças à internet e aos smartphones, invenções capitalistas – são ponta de lança da propaganda petista. Quem conhece o PT sabe, na verdade, que o alvo da “regulamentação” é o controle da grande imprensa. Menos cautelosos do que Haddad, militantes petistas acreditam que, caso o controle já existisse, a sigla ainda estaria no poder. Se o partido de Lula não o fez antes foi por pruridos democráticos de parte de suas lideranças e pela oposição da mídia profissional. Controlar a imprensa, no entanto, foi sempre um método de governos de esquerda. Basta ver os exemplos hodiernos da Venezuela e de Nicarágua. Sem falar da ditadura cubana, que leva ao paroxismo o controle da imprensa. Todos modelos defendidos pela chamada esquerda. Sem imprensa, sem democracia A imprensa livre, com todas as suas parcialidades e tendenciosidades, é condição sine […]

Ler mais

Os três papéis do Presidente da República


O presidente da República, no Brasil, personifica, em sua integralidade, o Poder Executivo, e exerce, simultaneamente, três papéis: 1) de Líder da Nação; 2) de Chefe de Estado; e 3) de Chefe de Governo. Os dois primeiros são mais simbólicos. O verdadeiro estadista é aquele que preenche essas três dimensões do cargo e o faz com o espírito republicano e que, apesar do enorme poder que o cargo lhe confere, não o exerce de forma autocrática ou irresponsável. Os principais atributos de um presidente da República são sua legitimidade e liderança, as duas condições que o habilitam a liderar a Nação, convencendo-a da importância, necessidade e conveniência de suas iniciativas, inclusive daquelas que eventualmente contrariem interesses. É o principal requisito para que conquiste e preserve a governabilidade. Isso é o que se chama de capital político. Nesse papel, de caráter mais simbólico que prático, o presidente deve ser percebido como exemplo na defesa e no respeito à Constituição, na condução da ordem interna e na promoção da paz social entre os brasileiros, bem como na defesa da soberania nacional e no zelo pela defesa do Estado Democrático de Direito. É tanto que no ato de sua posse, conforme previsto no art. 78 da Constituição Federal, o presidente é obrigado a prestar o juramento perante o Congresso Nacional, “prestando o compromisso de manter, defender e cumprir a Constituição, observar as leis, promover o bem geral do povo brasileiro, sustentar a união, a integridade a independência do Brasil”. O papel de Chefe de Estado, cuja principal missão é bem representar o País e o Povo Brasileiro perante governos estrangeiros e organismos internacionais, além de autoestima e confiança, tem como pressuposto acreditar no Brasil e defender sua inserção soberana no mundo globalizado, inclusive para efeito de disputa de mercados. Esse papel requer uma […]

Ler mais

Governabilidade do próximo presidente: condições e pressupostos


A palavra governabilidade refere-se às próprias condições substantivas ou materiais de exercício do poder e de legitimidade do Estado e do seu governo, ambas derivadas da postura governamental diante da sociedade civil e do mercado. Nessa perspectiva, a governabilidade diz respeito à autoridade política do Estado em si, entendida como a capacidade que este tem para agregar os múltiplos interesses dispersos pela sociedade e apresentar-lhes um objetivo comum para os curto, médio e longo prazos, e depende da relação entre a autoridade e as instituições de governo, bem como do poder das instituições que a ele se opõem. Assim, a governabilidade estará ou não presente na medida em que haja apoio às políticas do governante e à sua capacidade de articular alianças e coalizões/pactos entre os diferentes grupos sócio-políticos para viabilizar o seu projeto de Estado e sociedade, conferindo-lhe legitimidade para implementar políticas. Para garantir a governabilidade, e evitar a paralisia ou o colapso das instituições e dos serviços públicos, é indispensável quatro tipos de estabilidade:  política, social, financeira e de gestão. A primeira estabilidade – a política – é crucial, pois tem relação direta com a legitimidade do governo. Ela depende, além da aceitação do resultado eleitoral, de apoio no Poder Legislativo, o lócus onde se forma a vontade normativa do Estado e o foro legítimo e apropriado para a solução das demandas da sociedade a serem traduzidas na forma de lei e de políticas públicas. Uma boa relação com o Poder Legislativo é fundamental porque quando o Congresso dispõe de agenda própria e diverge majoritariamente do programa do presidente eleito, e, no sistema político brasileiro, o Chefe do Poder Executivo só tem três alternativas: a) concordar com as propostas do Congresso, fazendo-as suas; b) obedecer, ou seja, aceitar a contragosto o que for aprovado, até porque o Congresso […]

Ler mais