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Michel Temer X Renan Calheiros: em política, não se rompe para sempre

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Todas as vezes que o PMDB chega ao topo do poder, as rivalidades desestabilizam o ambiente interno. Foi assim no governo Sarney e mais tarde na administração Itamar. Hoje, com Temer no Planalto, o problema se chama Renan Calheiros.

Nesse caso, o fato de os dois se conhecerem há décadas e desfrutarem uma amizade que soma até aqui bem-sucedidos projetos de poder torna a situação ainda mais emblemática. No PMDB, muita gente acha que as reações do senador alagoano ao governo Temer são mais do que esperadas. “A partir do momento em que Renan desceu da presidência do Senado e encontrou uma situação complicada nas recentes pesquisas eleitorais em seu estado, tínhamos certeza que ele atacaria”, diz um importante peemedebista.

Temer e Renan se respeitam e conhecem seus respectivos limites. O diálogo entre os dois é contínuo e aberto. O problema é quando a relação entre ambos envolve outros personagens do partido que têm seus próprios mecanismos de interpretação, tornando a atmosfera conturbada.

Na visão do PMDB governista (que constitui a enorme e quase absoluta maioria), Renan está insatisfeito com alguns pontos específicos:

  1. O avanço dos partidos do “centrão” em alguns cargos estratégicos: liderança do governo no Senado, liderança da maioria e potencialmente a relatoria do Orçamento.
  2. Pontos da Reforma da Previdência que têm impacto direto sobre o Nordeste (como a situação dos trabalhadores rurais, por exemplo).
  3. Perda de espaço (formal e informal) para o presidente do Senado, Eunício Oliveira.
  4. Vontade de ter voz mais ativa em temas estratégicos do governo.

Para os governistas, há um problema na forma pela qual as demandas são exigidas, e não nas demandas em si. “Não se atira para todos os lados para depois pedir o que se quer”, afirma um parlamentar.

Aproximação com Lula

Entre os que estão ao lado de Renan (que ainda são poucos), “o governo não pode ignorar uma liderança transpartidária como ele”, diz um petista. Essa posição, principalmente de aproximação com petistas, não deixa de ser mais um problema na lista.

É possível que o senador Renan Calheiros se alinhe com o PT de Lula, o que seria mais um nó na cabeça de coxinhas e mortadelas. No Brasil, se discute muito o que deveria ser, mas pouco sobre como as coisas são. Renan depende de sua força em Alagoas para permanecer poderoso no Nordeste e no resto do Brasil.

Na sua visão, os caminhos que o governo está seguindo o enfraquecem em Alagoas a ponto de forçá-lo a buscar realinhar sua posição com aqueles que são historicamente fortes no estado e no Nordeste: nesse caso, Lula. O fato de o ministro do Turismo, Marx Beltrão, o haver esquecido como padrinho político aguça ainda mais o sentimento de sobrevivência do senador.

Nada pessoal, mas negócios são negócios. Os jogos políticos levam em consideração:

  1. Estabilidade política local.
  2. Análise do impacto de temas nacionais no local de atuação do político.
  3. Percepção de quem está contra e quem está a favor de certos temas nos níveis estaduais e federais.
  4. A forma como isso aumenta ou diminui a capacidade de permanência em uma posição de liderança e poder.
  5. Alinhamento e afastamento de outras lideranças por meio da escolha de temas e interesses comuns.

Lealdade? Diretriz partidária? Interesse nacional? Isso não existe nem na Finlândia. Quando há convergência de interesses pessoais, as coisas andam, quando não há, as coisas travam, e quando a comunicação é boa, ninguém percebe que se trata da química individual que funcionou.

Giulio Andreotti, senador e ministro italiano em diversas oportunidades, disse uma vez: político de verdade consegue antever onde a paz pode ser feita amanhã para poder brigar com um colega hoje.

Nada se rompe para sempre na política. Infelizmente, nada se constrói para sempre também.

Publicado na GQ em 11/04/2017

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