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Terremoto

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Às 9h40 da manhã do dia 1º de novembro de 1755, a cidade de Lisboa estava calma. Os preparativos para uma festa de Todos os Santos transcorriam em clima de normalidade. Inesperadamente tudo mudou e, sem dúvida, mudou para pior. Um violento terremoto destruiu a cidade, modificou o eixo do poder.

Antigos poderosos morreram ou foram tragados pelas necessidades imediatas do momento. Outros personagens surgiram e tomaram conta da cena. Entre eles o mais importante naquele país e no Brasil foi Sebastião José Carvalho e Mello – o Marquês de Pombal.

Sua primeira medida simples e direta foi mandar enterrar os mortos e cuidar dos vivos. A partir daí ele conseguiu consolidar seu poder, no período do frágil D. José I, até expulsar os jesuítas não só do Brasil, mas de todo império português e colocar a ordem numa quase clandestinidade.

Quem faz este relato é Alberto Veloso, autor de “Tremeu a Europa e o Brasil também”, a história do terremoto/maremoto de Lisboa de 1755 que também afetou o Brasil, um país de poucos, mas significativos, tremores de terra, edição Chiado Editora. O autor aponta para o fato de que o território brasileiro sofre com terremotos de média intensidade.

Acabou-se a última lenda. O Brasil é vítima de terremotos. Nada que atinja o nível japonês, mas de intensidade intermediária. Há um recado nesta história. A partir desta semana, possivelmente, começarão a ser divulgadas as delações premiadas dos executivos da Odebrecht e de outras empresas.

Será o terremoto político de magnitude expressiva. Muita gente vai perecer na primeira leva, outros conseguirão escapar do impacto inicial, mas ficarão pelo caminho. Os constantes terremotos brasileiros têm sua correspondência na política.

O presidente Temer deu sua contribuição ao debate com o infeliz discurso no dia internacional da mulher. Ele se mostrou por inteiro. As mulheres ficaram furiosas porque o presidente se revelou um machista da velha guarda.

As feministas, zangadas, partiram para o esculacho geral através das redes sociais. Faltou assessor capaz de escrever um texto politicamente correto para o presidente da República. É um deslize menor. Episódio que poderia ter sido evitado. Foi um bom momento para ficar calado.

O presidente pilota grande acordo no Congresso que lhe garante aprovação de todas as matérias de seu interesse. É difícil manter essa unidade por largo período. No início de seu governo, a presidente Dilma também esnobava os adversários com a sua absurda maioria. Ela não conseguiu manter a turma unida.

Político pula do barco com a maior facilidade. Se perceber alguma dificuldade no horizonte, sem qualquer cerimônia, ele muda sua fidelidade, troca de camisa e confraterniza hoje com o adversário de ontem. Michel Temer soube aproveitar o momento apropriado para desembarcar do governo anterior. É do jogo.

O PMDB sempre foi um rendilhado de interesses regionais. Ele não possui, desde Ulysses Guimarães, um líder nacional. A característica da legenda é a de ser administrado por objetivos específicos dos lideres nos estados. Funciona assim. E o PMDB do Senado às vezes fica em desacordo com o da Câmara.

Na época da Constituinte, o PMDB foi uma federação de legendas de esquerda. E um pouco de direita conservadora. Acomodou Tancredo Neves e Miguel Arraes. E todos atingiram seus respectivos objetivos. Conviveram.

Os líderes dentro do partido brigam muito na defesa de suas posições. Mas, eles precisam proteger o bem maior que é o poder da Presidência da República e tudo o que isso significa. Assim, as disputas serão constantes e vão acompanhar o atual governo até seu final, mas ninguém vai atear fogo ao circo.

Há muito em jogo neste ano de 2017. Reputações poderão escorrer ladeira abaixo e até pedidos de prisão de personagens inesperados. É neste ponto que reside o poder do presidente Temer. Ele pode dizer, como o rei francês, que depois dele será o dilúvio.

O momento é, portanto, muito tenso. A Operação Lava-Jato vai enfileirar réus, anunciar sentenças longas e severas. Alguns vão passar muitos carnavais na prisão. E o dinheiro obtido com as tenebrosas transações também estará irremediavelmente perdido. Algum sempre remanesce numa gaveta esquecida, mas o resultado é desproporcional ao esforço e ao desgaste experimentado por estes personagens.

A política é viva. O movimento é constante. A explosão da política brasileira vai ter efeito devastador na maneira de tratar a coisa pública. Exatamente como ocorreu em Lisboa no longínquo ano de 1755. Foi ali que depois da devastação surgiu o poderoso Marquês de Pombal.

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