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A tragédia dos radicais

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Movimentos radicais tendem a terminar radicalmente. O processo é usualmente violento, impositivo, sem dar tréguas aos acusados. Assim agiu Tomas de Torquemada, líder da inquisição na Espanha, cujo desejo era expulsar todos os judeus do país. Ele acusou e mandou para a fogueira mais de duas mil pessoas.

Excedeu-se tanto que o Papa Alexandre VI nomeou quatro assistentes dele com o mesmo nível hierárquico. Perdeu seu prestígio. Morreu na mesma cidade em que nasceu Ávila. Tempos depois, sua sepultura foi violada e seus ossos queimados, como ele fizera com os supostos hereges.

O nosso Torquemada chama-se Rodrigo Janot Monteiro de Barros, mineiro, 61 anos, formado pela Universidade Federal de Minas Gerais. Fez curso de especialização em Pisa, na Itália. Advogou no início da carreira, mas entrou cedo para a Procuradoria Geral da República. E fez carreira.

Nos tempos de universitário foi militante do PC do B. Depois, vestiu a camisa do PT e com ela comandou a PGR empenhado, nos últimos tempos, em derrubar o Presidente Temer. Não mediu palavras, nem atos. Jogou tudo com a aberta conivência das organizações Globo.

Ao conceder a imunidade total a Joesley Batista e sua turma, Janot ultrapassou a linha do bom senso. Entrou na linha de tiro de seus colegas da PGR que há algum tempo desconfiavam dos procedimentos do chefe. Além disso, um procurador já tinha sido punido, Ângelo Goulart.

Outro, Marcello Miller, braço direito do Procurador-Geral, foi acusado de trabalhar nos dois lados do balcão. Ou seja, ele negociou a delação e instruiu os delatores como agir. E ainda montou o cenário para a concessão de uma liberalidade, sem precedentes, no acordo de delação premiada.

Joesley Batista e sua turma confessaram ter subornado, das mais diferentes e criativas maneiras, envolvendo cerca de 1.840 políticos e funcionários públicos em todo país. Transitavam com desembaraço pelos gabinetes mais influentes do Brasil.

Contaram sua história para os procuradores da PGR, mas não passaram nem perto da porta de uma delegacia de polícia. Marcelo Odebrecht, ao contrário, entregou todo o jogo, mencionou cerca de cem políticos e está há dois anos preso em Curitiba. A diferença, além de escandalosa, é claramente ilegal. É neste patamar que as coisas começam a ficar estranhas.

Na delação dos irmãos Batista, a Polícia Federal descobriu que há trechos apagados nas mídias que foram entregues. Isso significa que alguma coisa foi escondida. Mas no primeiro momento o detalhe passou em branco.

O procurador Marcello Miller participou de reuniões no acordo de leniência do grupo J&F pelo escritório Trench, Rossi, Watanabe sem ter o registro oficial da Ordem dos Advogados do Brasil. Ele atuou na PGR, pediu para sair e seis dias depois já estava representando o escritório de advocacia.

A soma de irregularidades, em todo o processo, não poderia ser varrida para debaixo do tapete. A procuradora Maria Clara Barros Noleto encontrou a fita. Nela, Joesley, meio bêbado, fala da ajuda do Procurador e menciona alguns ministros do Supremo Tribunal Federal.

Como esta fita foi parar no meio do inquérito? Acaso? Coincidência? É difícil falar coincidências em processo dessa gravidade. Mas o fato colocou o Procurador Geral numa posição dificílima. Ele poderia ser processado e até preso por sua sucessora por não ter tomado as medidas necessárias no tempo certo e atuado com notória preferência em favor dos delatores.

Restou a ele convocar a entrevista coletiva para afirmar que surgiram fatos gravíssimos que envolviam até ministros do STF. Não chegou a tanto. O único fato novo foi a referência ao procurador Marcello Miller.

Alguém providenciou a gravação e trabalhou para que o documento constasse nos anexos da delação dos irmãos Batista. O episódio lembra a campanha de Tancredo Neves à Presidência da República. Nos grandes comícios apareciam enormes bandeiras vermelhas.

Acontece que, na época, os comunistas só trabalhavam nos bastidores. Quem agitava as bandeiras e cartazes eram militares interessados em torpedear a candidatura do PMDB, que iria vencer Paulo Maluf no Colégio Eleitoral.

Janot pareceu perturbado no momento que falou aos jornalistas sobre a necessidade de abrir inquérito e, talvez, rever a delação premiada. Antes, na manhã daquele dia, ele se reuniu com representante da TV Globo, que veio à Brasília para esse encontro.

O grupo Globo imediatamente passou a defender o Procurador e a garantir que a delação dos irmãos Batista tem valor, embora a imunidade dos delatores possa ser revista. O acordo entre Procurador e a Globo poderia resultar em apoio a possível candidatura à Presidência da República. Agora, serve apenas para assegurar sua retirada de cena. E manter a pressão sobre Temer.

Publicado no Correio Braziliense em 09/09/2017

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