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Quem é o “Trump brasileiro”?

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A eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e a candidatura de Emmanuel Macron na França desencadearam uma onda de especulações a respeito do acerto de eleger outsiders como alternativa para disputar a Presidência da República.

No Brasil, a excitação de parte da população no Twitter, Facebook e demais redes sociais com a eleição de Trump aqueceu ainda mais o debate sobre e identidade do Trump brasileiro. Não necessariamente um candidato que emule nosso comportamento e sonhos, mas alguém que surja inesperadamente como nome forte e sem histórico político relevante.

Efeito Bolsonaro

A exemplo do Trump original, o deputado federal Jair Bolsonaro passou a ser cultuado nas redes sociais como aquele que o Brasil precisaria, mais por causa dos seus aspectos pitorescos, comentários diretos (e muitas vezes agressivos) e, principalmente, por representar um contraponto explícito ao perfil político clássico dos últimos anos.

Como era esperado, o combustível de Bolsonaro perdeu octanagem e hoje ele não gera a mesma excitação de meses atrás. Até porque seu inimigo número um, o deputado Jean Wyllys, não tem a expressão nem a importância de um sparring à altura para contrapor a imagem que Bolsonaro gostaria de projetar.

Doria, o “não político”

Surge, então, João Doria, prefeito de São Paulo, como o arquétipo de outsider. “Dificilmente nosso ambiente político permite algo completamente novo. Doria, como candidato, é, ao contrário do PSDB, tradicionalíssimo. Ele não teria o mesmo apelo, e provavelmente nem seria prefeito de São Paulo, se não estivesse em um partido dessa envergadura”, diz um deputado federal do PSDB paulista.

A lógica de um outsider na política brasileira se fortalece quando o ambiente político está tumultuado ou passando por um processo de descamação, como o atual. O ex-presidente Fernando Collor não foi tão outsider como alguns imaginam. Veio de uma família alagoana tradicionalíssima, resultado de um ambiente de afirmação política.

Por razões óbvias, a Lava-Jato dizimou uma geração de políticos, incluindo potenciais nomes para cargos majoritários. Doria emerge como um nome relevante não apenas pela limpeza que o combate à corrupção promove, mas pela sua capacidade de comunicação que atende em cheio a expectativa de uma parte da população ansiosa por confrontar a lógica petista dos últimos anos.

Ter um outsider pode ser a saída para revitalizar a percepção de parte da sociedade sobre os partidos tradicionais. O PMDB, que apesar de ter uma estrutura interna que não permite tão facilmente o surgimento de um nome novo, poderia enxergar em Paulo Hartung, governador do Espírito Santo, uma novidade eleitoral.

O DEM talvez fosse capaz de investir no senador Ronaldo Caiado (GO) ou em ACM Neto (BA), que apesar de fazer parte de uma tradicionalíssima (e controversa) família política, pode se enquadrar nas novidades políticas que se exige de um outsider.

Marina Silva, a mais antiga das outsiders, apesar da pouca capacidade eleitoral e das dificuldades de afirmar-se nos momentos mais críticos de uma campanha, seguirá sendo um nome respeitável e, possivelmente, uma eterna outsider.

Parcas opções à esquerda

No caso do PT, a questão é um pouco mais complicada. “Tendo Lula nos quadros, nunca trabalhou por outros nomes fortes. O erro foi deixar que Lula se tornasse maior que o partido, mas como se trata do chefe, isso se tornou inevitável”, é a visão de um deputado federal petista. Para ele, a escolha de Dilma foi um erro: “Jacques Wagner poderia ter sido um nome forte. Dilma era tão outsider, que nem se estabelecer dentro do partido ela conseguiu. Ela era Lula, e não PT.”

Caso o ex-presidente não possa se candidatar (que é o mais provável), o PT terá imensas dificuldades na busca de candidatos viáveis. Dentro do seu universo calejado, são poucos os outsiders. Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo, poderia ser um, apesar de não ter a popularidade que muitos no partido apostaram que ele teria quando foi eleito.

José Eduardo Cardozo, ex-ministro da Justiça e advogado de Dilma no processo de impeachment, outro. “Por mais que tivesse sido um oponente dela antes de 2014, tentou defender sua cliente com armas legais. Talvez tenha sido o nome que saiu menos manchado entre os integrantes do governo Dilma”, afirmou um parlamentar peemedebista.

Logo, a questão é mais complexa do que simplesmente escolher um candidato diferente. O brasileiro aceitaria um candidato antigo, desde que limpo em relação à Lava-Jato e com propostas modernas.

Hoje, Doria ganhou muitos pontos por representar a modernidade na política, mas seu histórico ainda é muito curto. Por ser apadrinhado de Geraldo Alckmin, Doria só seria candidato caso o governador de São Paulo abrisse caminho ou o PSDB, como um todo, aceitasse que o momento demanda alguém novo. Entre os novos, ele hoje está na liderança. Mas os velhos ainda não estão necessariamente acabados.

Publicado no GQ em 27/04/2017

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