eleicoes-2018

Quem é o “Trump brasileiro”?

Imprimir

A eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e a candidatura de Emmanuel Macron na França desencadearam uma onda de especulações a respeito do acerto de eleger outsiders como alternativa para disputar a Presidência da República.

No Brasil, a excitação de parte da população no Twitter, Facebook e demais redes sociais com a eleição de Trump aqueceu ainda mais o debate sobre e identidade do Trump brasileiro. Não necessariamente um candidato que emule nosso comportamento e sonhos, mas alguém que surja inesperadamente como nome forte e sem histórico político relevante.

Efeito Bolsonaro

A exemplo do Trump original, o deputado federal Jair Bolsonaro passou a ser cultuado nas redes sociais como aquele que o Brasil precisaria, mais por causa dos seus aspectos pitorescos, comentários diretos (e muitas vezes agressivos) e, principalmente, por representar um contraponto explícito ao perfil político clássico dos últimos anos.

Como era esperado, o combustível de Bolsonaro perdeu octanagem e hoje ele não gera a mesma excitação de meses atrás. Até porque seu inimigo número um, o deputado Jean Wyllys, não tem a expressão nem a importância de um sparring à altura para contrapor a imagem que Bolsonaro gostaria de projetar.

Doria, o “não político”

Surge, então, João Doria, prefeito de São Paulo, como o arquétipo de outsider. “Dificilmente nosso ambiente político permite algo completamente novo. Doria, como candidato, é, ao contrário do PSDB, tradicionalíssimo. Ele não teria o mesmo apelo, e provavelmente nem seria prefeito de São Paulo, se não estivesse em um partido dessa envergadura”, diz um deputado federal do PSDB paulista.

A lógica de um outsider na política brasileira se fortalece quando o ambiente político está tumultuado ou passando por um processo de descamação, como o atual. O ex-presidente Fernando Collor não foi tão outsider como alguns imaginam. Veio de uma família alagoana tradicionalíssima, resultado de um ambiente de afirmação política.

Por razões óbvias, a Lava-Jato dizimou uma geração de políticos, incluindo potenciais nomes para cargos majoritários. Doria emerge como um nome relevante não apenas pela limpeza que o combate à corrupção promove, mas pela sua capacidade de comunicação que atende em cheio a expectativa de uma parte da população ansiosa por confrontar a lógica petista dos últimos anos.

Ter um outsider pode ser a saída para revitalizar a percepção de parte da sociedade sobre os partidos tradicionais. O PMDB, que apesar de ter uma estrutura interna que não permite tão facilmente o surgimento de um nome novo, poderia enxergar em Paulo Hartung, governador do Espírito Santo, uma novidade eleitoral.

O DEM talvez fosse capaz de investir no senador Ronaldo Caiado (GO) ou em ACM Neto (BA), que apesar de fazer parte de uma tradicionalíssima (e controversa) família política, pode se enquadrar nas novidades políticas que se exige de um outsider.

Marina Silva, a mais antiga das outsiders, apesar da pouca capacidade eleitoral e das dificuldades de afirmar-se nos momentos mais críticos de uma campanha, seguirá sendo um nome respeitável e, possivelmente, uma eterna outsider.

Parcas opções à esquerda

No caso do PT, a questão é um pouco mais complicada. “Tendo Lula nos quadros, nunca trabalhou por outros nomes fortes. O erro foi deixar que Lula se tornasse maior que o partido, mas como se trata do chefe, isso se tornou inevitável”, é a visão de um deputado federal petista. Para ele, a escolha de Dilma foi um erro: “Jacques Wagner poderia ter sido um nome forte. Dilma era tão outsider, que nem se estabelecer dentro do partido ela conseguiu. Ela era Lula, e não PT.”

Caso o ex-presidente não possa se candidatar (que é o mais provável), o PT terá imensas dificuldades na busca de candidatos viáveis. Dentro do seu universo calejado, são poucos os outsiders. Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo, poderia ser um, apesar de não ter a popularidade que muitos no partido apostaram que ele teria quando foi eleito.

José Eduardo Cardozo, ex-ministro da Justiça e advogado de Dilma no processo de impeachment, outro. “Por mais que tivesse sido um oponente dela antes de 2014, tentou defender sua cliente com armas legais. Talvez tenha sido o nome que saiu menos manchado entre os integrantes do governo Dilma”, afirmou um parlamentar peemedebista.

Logo, a questão é mais complexa do que simplesmente escolher um candidato diferente. O brasileiro aceitaria um candidato antigo, desde que limpo em relação à Lava-Jato e com propostas modernas.

Hoje, Doria ganhou muitos pontos por representar a modernidade na política, mas seu histórico ainda é muito curto. Por ser apadrinhado de Geraldo Alckmin, Doria só seria candidato caso o governador de São Paulo abrisse caminho ou o PSDB, como um todo, aceitasse que o momento demanda alguém novo. Entre os novos, ele hoje está na liderança. Mas os velhos ainda não estão necessariamente acabados.

Publicado no GQ em 27/04/2017

Loading Facebook Comments ...

Artigos relacionados

Para reflexão do potencial eleitor de Bolsonaro


Parcela do eleitorado – indignada com a situação do país, enfurecida com a corrupção e com a violência – tem sede de vingança. E esse sentimento aproxima essas pessoas do candidato Jair Messias Bolsonaro, que não faz outra coisa na vida a não ser reforçar esse sentimento de revolta nas pessoas. Quando um agente político identifica uma situação de desconforto e recomenda uma punição para os seus supostos responsáveis, esse gesto o aproxima das pessoas que estão incomodadas com a situação, fazendo-as imaginar que esse diagnóstico comum é suficiente para fazer dele (agente político) seu representante no Congresso ou no Poder Legislativo. O “messianismo”, ou a crença na vinda de um salvador ou redentor, caído do céu, imaculado e justiceiro, para libertar o povo de seus males, é um fato na cultura da Humanidade, mas, ao mesmo tempo, pode gerar a alienação dos indivíduos quanto a serem, eles mesmos, os agentes para a solução dos problemas identificados. O método adotado por Bolsonaro para sensibilizar seus apoiadores consiste em apontar problemas (criminalidade, corrupção, desemprego), indicar os supostos culpados (a esquerda, os comunistas, os malandros e corruptos), além de sugerir uma suposta solução (a punição, no caso a repressão, o encarceramento, o corte de direitos e serviços públicos, etc), numa construção que denota causa e efeito. Para potencializar e manter as pessoas presas a essa fórmula, utilizam as redes sociais para espalhar discórdia, mentiras e apontar fatos da realidade que chocam as pessoas. Existe um exército de mercenários, a serviço dos bolsonaristas, que alimenta, estimula e sustenta esse tipo de campanha permanente É o modo de comunicação troll, que provoca reações enfurecidas, estimula um comportamento de massas, manipula, maneja e molda as crenças e sentimentos das pessoas sem contar com o consentimento ou vontade consciente delas. Provoca os instintos mais primitivos do […]

Ler mais

Que tipo de propostas se pode esperar do próximo presidente?


  Em artigo anterior, sob o título “as três visões em disputa na eleição de 2018”, tratei dos desenhos de Estado que estão em disputa. Neste trato de medidas que poderão ser propostas pelos representantes dessas três visões: a) Estado de proteção social, b) Estado liberal-fiscal, e c) Estado penal. Ressalte-se, desde logo, que alguns candidatos podem combinar, em seus programas de governo, políticas públicos de caráter liberal-fiscal com medidas do Estado penal, mas é bem menos provável que um candidato que adote a visão de estado de proteção social possa compatibilizar seu programa com propostas de ordem liberal-fiscal, ainda que possa incorporar algumas medidas de reforço à segurança pública. Os candidatos do campo da esquerda e da centro-esquerda[1], que adotam a defesa do estado de proteção social, terão como prioridade recuperar a capacidade do Estado de ofertar serviços e proporcionar o acesso a bens públicos, especialmente aos mais vulneráveis. Isto não significa que deixarão de propor reformas estruturais, inclusive com impacto sobre direitos, como reforma da Previdência e do Estado, mas com  generosas regras de transição. Os pressupostos para a retomada do projeto de estado de proteção social, entretanto, são a revogação ou flexibilização da Emenda Constitucional 95, e a realização de reforma tributária que amplie a arrecadação, sem o que será impossível conter o aumento da desigualdade e evitar o colapso do Estado. Já os candidatos que defendem o Estado de perfil liberal-fiscal[2], além de manterem o congelamento do gasto público – admitindo a sua flexibilização somente se, e quando, forem aprovadas reformas profundas para reduzir o gasto social – descartam qualquer aumento de tributos, exceto do Imposto de Renda de pessoa física, aprofundando o ajuste apenas pelo lado da despesa, e notadamente na área social. A prioridade – ao lado da venda de ativos, mediante a alienação […]

Ler mais

Por trás do “choque liberal” do PT, o risco da censura à imprensa


Por trás da proposta aparentemente benfazeja de Fernando Haddad esconde-se um velho desejo do PT e um postulado de regimes autoritários: a censura da imprensa. Um dos possíveis postes de Lula às eleições presidenciais de 2018, o ex-prefeito propõe “regulamentação que aumente o pluralismo e a diversidade dos meios”. Em entrevista aos jornalistas Ricardo Mendonça e César Felício na segunda, 23 de julho, Haddad acrescentou que “o foco é evitar concentração da propriedade, sobretudo propriedade cruzada”. Buscando um verniz democrático à iniciativa, disse que “queremos dar um choque liberal”. https://www.valor.com.br/politica/5676907/haddad-propoe-punicao-tributaria-para-spread-alto Cuba não é pluralista Ampliar o número de proprietários dos meios de comunicação é, sim, saudável. A pluralidade incentiva a concorrência e inibe a manipulação. Ganha o jornalismo profissional e a liberdade de informação, que inexiste em modelos controlados pelo Estado. Afinal, quem vive do jornalismo não pode fazer como os blogs sujos, que divulgam apenas um lado da notícia e não abrem espaço ao contraditório. Na verdade, aqueles sites – que existem graças à internet e aos smartphones, invenções capitalistas – são ponta de lança da propaganda petista. Quem conhece o PT sabe, na verdade, que o alvo da “regulamentação” é o controle da grande imprensa. Menos cautelosos do que Haddad, militantes petistas acreditam que, caso o controle já existisse, a sigla ainda estaria no poder. Se o partido de Lula não o fez antes foi por pruridos democráticos de parte de suas lideranças e pela oposição da mídia profissional. Controlar a imprensa, no entanto, foi sempre um método de governos de esquerda. Basta ver os exemplos hodiernos da Venezuela e de Nicarágua. Sem falar da ditadura cubana, que leva ao paroxismo o controle da imprensa. Todos modelos defendidos pela chamada esquerda. Sem imprensa, sem democracia A imprensa livre, com todas as suas parcialidades e tendenciosidades, é condição sine […]

Ler mais

Os três papéis do Presidente da República


O presidente da República, no Brasil, personifica, em sua integralidade, o Poder Executivo, e exerce, simultaneamente, três papéis: 1) de Líder da Nação; 2) de Chefe de Estado; e 3) de Chefe de Governo. Os dois primeiros são mais simbólicos. O verdadeiro estadista é aquele que preenche essas três dimensões do cargo e o faz com o espírito republicano e que, apesar do enorme poder que o cargo lhe confere, não o exerce de forma autocrática ou irresponsável. Os principais atributos de um presidente da República são sua legitimidade e liderança, as duas condições que o habilitam a liderar a Nação, convencendo-a da importância, necessidade e conveniência de suas iniciativas, inclusive daquelas que eventualmente contrariem interesses. É o principal requisito para que conquiste e preserve a governabilidade. Isso é o que se chama de capital político. Nesse papel, de caráter mais simbólico que prático, o presidente deve ser percebido como exemplo na defesa e no respeito à Constituição, na condução da ordem interna e na promoção da paz social entre os brasileiros, bem como na defesa da soberania nacional e no zelo pela defesa do Estado Democrático de Direito. É tanto que no ato de sua posse, conforme previsto no art. 78 da Constituição Federal, o presidente é obrigado a prestar o juramento perante o Congresso Nacional, “prestando o compromisso de manter, defender e cumprir a Constituição, observar as leis, promover o bem geral do povo brasileiro, sustentar a união, a integridade a independência do Brasil”. O papel de Chefe de Estado, cuja principal missão é bem representar o País e o Povo Brasileiro perante governos estrangeiros e organismos internacionais, além de autoestima e confiança, tem como pressuposto acreditar no Brasil e defender sua inserção soberana no mundo globalizado, inclusive para efeito de disputa de mercados. Esse papel requer uma […]

Ler mais