politica

Voto de político: nem sempre o que se fala é o que se faz

Imprimir

Politicamente, não faz sentido um parlamentar adiantar qualquer voto que ele fará. O silêncio em relação ao voto é o que permite a negociação. A dúvida gerada pelo parlamentar atrai a atenção do Palácio do Planalto, e a mensagem recebida pela imprensa sobre voto é um convite às conversas. Seguramente, cada exposição pública de voto, é na verdade, um desejo de negociar.

O novo grande evento na política brasileira é a acusação do procurador-geral Rodrigo Janot contra o presidente Michel Temer. Essa acusação, que trata especificamente de corrupção passiva, fará parte de um conjunto de movimentos no qual várias acusações serão enviadas da PGR ao Supremo Tribunal Federal e, consequentemente, à Câmara dos Deputados para a decisão dos parlamentares sobre o avanço ou não do inquérito.

Com a denúncia na Comissão de Constituição e justiça da Câmara, o presidente da Comissão, Rodrigo Pacheco (PMDB-MG), escolherá o relator. O presidente Temer terá dez sessões para apresentar a defesa e, posteriormente, o relator terá cinco para apresentar seu parecer.

No momento, a permanência de Temer no cargo ainda é o cenário mais provável. O conteúdo jurídico da acusação, segundo vários juristas, foi elaborado de forma fraca, por mais que o conteúdo factual ainda seja muito forte e com um grande impacto na imprensa e na sociedade.

Votos declarados não estão garantidos

Os votos adiantados por alguns parlamentares sobre a denúncia não representam necessariamente o que ocorrerá. O Palácio está confiante em ter entre 240 e 260 votos. Estes são votos remanescentes da estratégia de arregimentação da Casa Civil para a aprovação da Reforma da Previdência. Antes do surgimento do áudio do empresário Joesley Batista e do vídeo de Janot, Temer tinha aproximadamente 330 votos prontos para a Reforma da Previdência. Esses votos, uma vez confirmando a aprovação da reforma com a consequente aprovação no Senado, serviria de base para a reforma ministerial que surgiria em seguida. A composição ministerial se daria a partir da lealdade e do posicionamento partidário na aprovação da Reforma da Previdência.

Temer x Janot

Naturalmente, esse quadro mudou. A rejeição da denúncia de Janot passou a ser a base de análise para uma reforma ministerial que poderia ocorrer por volta de setembro. A opção em fatiar a denúncia também ajuda Janot em manter-se em evidência na imprensa, já que, natural e legitimamente, este já deixou claro em várias rodas de Brasília que tem interesse em entrar oficialmente na política.

No entanto, entre os erros políticos de Janot em relação à acusação está a de ter feito a ação sobre o senador Aécio Neves no mesmo período em que a acusação de Temer foi apresentada. Buscando razões para abandonar a base aliada, parte do PSDB cogitou usar as acusações como argumento de saída. Porém, com o envolvimento de Aécio, que afeta de forma contundente a imagem do PSDB, a postura do partido acabou se unificando com a postura de parte do PMDB, trazendo o conflito para o campo da política x judiciário nas figuras do Parlamento x PGR. Isso fortalece a imagem da PGR na imprensa, mas, na prática, enfraquece uma eventual drenagem de votos contra a rejeição da acusação na Câmara.

Fatiamento das acusações

Por outro lado, o fatiamento das acusações contra o presidente alonga a agonia e lança o acaso como possível decisor. Ao longo dos meses de julho, agosto e setembro, quando Janot deixar a Procuradoria-Geral da República, fatos novos poderiam surgir. Isso inclui eventuais delações e protestos (não os organizados por sindicatos), o que causaria novamente uma hemorragia nos votos contrários à rejeição. Esse fato (o fatiamento) é o que deixa o prognóstico tão incerto. Caso toda a acusação estivesse consolidada em uma, as chances de Temer seriam ainda maiores. Importante ressaltar que por mais que o fatiamento alongue o episódio, o mundo político enxerga a denúncia como uma clara provocação de Janot ao Parlamento, prejudicando assim o lobby que o procurador-geral terá de fazer nos próximos dias para conseguir os votos necessários.

Na hipótese de o presidente Temer sobreviver às acusações de Janot, será feita uma análise do número de parlamentares que rejeitaram as acusações, mas também serão detectados os principais líderes entre os parlamentares. Estes, uma vez identificados, seriam os âncoras de apoio que indicariam como a reforma ministerial ocorreria, além de indicar quem seriam os líderes para, eventualmente, retomar a Reforma da Previdência.

Publicado na GQ em 03/07/2017

Loading Facebook Comments ...

Artigos relacionados

Série eleições 2018: horário eleitoral, propaganda e marketing


Neste artigo vamos tratar de como bem utilizar o horário eleitoral gratuito, mediante o uso do rádio e da TV, e como potencializar a propaganda e o marketing da campanha, iniciando com conceitos e dicas sobre o emprego dessas ferramentas na campanha eleitoral.   Os programas de rádio e TV podem se constituir em uma importante fonte de votos. Os candidatos devem aproveitar bem esses meios e utilizar linguagem adequada para cada veículo. É fundamental a presença de um profissional ou agência que oriente na forma e no conteúdo dos programas. Para os candidatos com dificuldades de comunicação, além da presença do profissional na produção dos programas, recomenda-se um rápido treinamento com técnicas que irão ajudá-los na gravação dos programas, entrevistas, debates, nas salas em público e em comícios.   No rádio, a linguagem deve ser coloquial e repetitiva. É importante tratar apenas de um assunto de cada vez e associar o tema à sua imagem. Um bom jingle ajuda o eleitor a lembrar-se do candidato, de seu número e de suas bandeiras de campanha. O candidato deve procurar transmitir confiança e esperança.   Na televisão, além do conteúdo de sua fala, que deve conter frases curtas e na ordem direta, o candidato deve preocupar-se também com os gestos, expressões faciais e aparência. É importante não fazer gestos bruscos nem ser agressivo. A indignação deve ser expressada com toda a emoção possível, preferencialmente acompanhada de gestos e entonação da voz.   No curso da campanha não basta produzir bem os programas do candidato, é preciso também acompanhar e gravar os programas dos adversários. Isso possibilita solicitação do direito de resposta sempre que o candidato for atingido, mesmo que de forma indireta, com afirmação caluniosa, difamatória, injuriosa ou inverídica.   Já o trabalho de Marketing, conceituado como um conjunto de técnicas […]

Ler mais

Série Eleições 2018: planejamento da campanha


O êxito de uma campanha eleitoral, qualquer que seja o porte do Estado, depende em boa parte de um bom planejamento. Planejar significa avaliar possibilidades, dimensionar os recursos e estabelecer metas.

Ler mais

Previdência complementar: prazo de migração acaba em julho de 2018


O servidor público que ingressou nos poderes Executivo e Legislativo Federal antes de 07 de maio de 2013, respectivamente, com ou sem direito à integralidade e paridade, tem até o dia 29 de julho de 2018 para decidir se deve ou não migrar para a previdência complementar, que é quando vence o prazo de adesão previsto no art. 92 da Lei 13.328/16. Muitas entidades sindicais já fizeram o dever de casa e produziram estudos – considerando o perfil dos servidores por elas representados – mostrando as vantagens e desvantagens ou os riscos e as oportunidade de eventual migração nesse período. Mas a maioria, por variadas razões, que vão desde questões ideológicas até omissão, ainda não prestou os devidos esclarecimentos aos servidores, para que estes decidam com segurança sobre a conveniência de migrar ou não para a previdência complementar. O servidor que tenha incertezas quanto ao alcance de uma nova reforma da previdência – já que não existe dúvidas que virão mudanças nas regras de concessão de aposentadoria nos regimes próprio e geral – e que não tomar a decisão dentro desse prazo legal, ficará permanentemente vinculado ao regime próprio e, portanto, sujeito às futuras mudanças previdenciárias, inclusive em relação ao tempo que contribuiu sobre a totalidade da remuneração. Um das motivações de quem já migrou foi o fato de que o tempo que contribuiu sobre a totalidade, segundo a lei em vigor, ficaria preservado e seria pago pela União, em forma de benefício especial e em valor proporcional ao tempo que contribuiu sobre a totalidade, constituindo-se em ato jurídico perfeito e, supostamente, protegido pelo direito adquirido. Esse benefício especial, no momento da aposentadoria, se somaria ao teto do regime geral – em valor de maio de 2018 fixado em R$ 5.645,80 – e ao que o servidor viesse a acumular […]

Ler mais

O mercado prefere Alckmin, mas ‘comprou’ Bolsonaro


Sondagem da XP Investimentos com 204 investidores institucionais mostra que o ex-capitão Jair Bolsonaro superou o ex-governador Geraldo Alckmin na corrida sucessória. Quem convive com os tubarões do mercado, como o InfoMoney, braço editorial da XP Investimentos, interpretou o resultado da seguinte forma: o arrivista boquirroto deixou de ser surpresa. http://www.infomoney.com.br/mercados/acoes-e-indices/noticia/7462345/tubaroes-mercado-dao-favoritismo-bolsonaro-projetam-segundo-turno-contra-ciro “O mercado comprou Bolsonaro”, disse um desses observadores, acostumado à visão pragmática de quem só pensa em amealhar mais e mais moeda. Para essa turba – que não é ignara, senão dinheiro farto não teria -, não interessa quem é o dono da bola, desde que a deixe jogar. Preocupação máxima Para quem não leu a sondagem, eis a síntese. Bolsonaro saltou de 29%, em abril, para 48%, em junho, na expectativa de quem será o vencedor do pleito presidencial de outubro próximo. Geraldo Alckmin, o preferido dos tubarões, caiu de 48% para 31%. Atente-se que estes percentuais não tratam de preferência, mas de prognóstico. Igualmente relevante, a avaliação para o segundo turno. Nada menos do que 85% dos tubarões acreditam que o candidato do PSL estará no segundo turno. E “se você tivesse que ficar comprado em ativos brasileiros, quão preocupado com eleições você estaria”, quis saber a XP. 51% estão muito preocupados, 35% preocupados. A preocupação, depreende-se das tabelas divulgadas, é pela vitória eventual de Fernando Haddad e Ciro Gomes. Duas perguntas exprimem a preferência dos rentistas pelo ex-governador de São Paulo. “Para onde vai a bolsa nas próximas semanas/meses se _________ ganhar?” é uma delas. A outra apenas substitui “bolsa” por “câmbio”. Nos dois casos, o nome de Alckmin é o que remonta ao cenário pós-eleitoral mais otimista. Bolsa em alta, dólar em queda. Bolsonaro vem aí. Se vai ganhar, nem o oráculo mercado é capaz de prever. Relacionado

Ler mais