america-latina

A adesão da Bolívia ao MERCOSUL e a volta de ideologização regional

Imprimir

Encontra-se em tramitação na Representação Brasileira do Parlamento do MERCOSUL, o Protocolo de Adesão da Bolívia ao MERCOSUL como membro pleno. O tratado deverá entrar em breve na agenda da Comissão de Relações Exteriores da Câmara onde serão produzidos debates e polêmicas que trarão de volta ao bloco a ideologização que tantos males já provocou à integração regional. No Senado, a expectativa não é diferente. Não haverá pressa em ratificar a medida.

A Bolívia de Evo Morales se mantém aliada do chavismo bolivariano, mas em um tom bem mais ameno. La Paz sabe que o regime de Nicolás Maduro não dura muito mais tempo e é preciso recompor as relações com a vizinhança, em especial, com o Brasil, responsável pela importação de quase toda a produção de gás natural produzida naquele país.

Baixa no mercado internacional de gás

Importante destacar que à época do impeachment de Dilma Rousseff, a Bolívia retirou o seu embaixador em Brasília e acusou o atual presidente de golpista. Bastou os Estados Unidos encontrarem uma enorme reserva de gás de xisto para Morales baixar a bola e ensaiar uma reaproximação.

A descoberta norte-americana contribuiu, entre outras coisas, para a redução nos preços do gás no mercado internacional. Além disso, a Petrobras já não demonstra tanto entusiasmo em negociar um novo acordo com a Bolívia a partir de 2019 quando o atual contrato se encerra. Perder o Brasil como parceiro e lidando com uma Venezuela caótica é a própria visão do inferno.

Reaproximação diplomática

Evo Morales devolveu o seu embaixador ao Brasil e orientou o chanceler Fernando Huanacuni Mamani a preparar um encontro com Michel Temer. Fez o mesmo com Mauricio Macri e ainda participou da reunião de julho em Mendoza quando o Brasil assumiu a presidência do MERCOSUL. O presidente da Bolívia segue aferrado à Maduro, mas sabe que a Bolívia não pode ser arrastada pelo caos venezuelano. O país está perto de consolidar-se como um centro energético regional, o que pode representar a sua redenção econômica.

O problema é que as questões pragmáticas costumam ficar em segundo plano principalmente quando enfrentamos crises políticas. A situação da Venezuela e tudo o que envolve a sua situação, ilustrará os debates acerca do ingresso boliviano ao MERCOSUL.

Parceria estratégica

Do ponto de vista econômico, não restam dúvidas que a Bolívia como membro pleno do bloco interessa para todos, mas se analisamos as questões políticas e as normas impostas internamente, percebemos que toda a discussão poderá reavivar a ideologização do MERCOSUL, contaminando inclusive negociações extrarregionais.

O Protocolo de Adesão da Bolívia foi assinado em 17 de julho de 2015, por ocasião da Cúpula de Presidentes do MERCOSUL e encaminhado ao Congresso Nacional em maio deste ano. Em virtude de sua localização na América do Sul, a Bolívia adquire papel relevante no processo de integração regional. O país é, ainda, parte das bacias andina, amazônica e platina, e possui significativas reservas de minerais de elevado valor estratégico. O Brasil divide uma extensa fronteira com o país, de quase 3,5 mil quilômetros, maior que a fronteira entre os Estados Unidos com o México.

Bolívia deve aceitar todos os compromissos

Esses são alguns dados que confirmam a importância em termos a Bolívia no MERCOSUL. No entanto, o que será determinante neste processo é saber até que ponto o país está disposto a assumir todos os compromissos advindos de sua adesão plena, principalmente quanto à observância da Cláusula Democrática; nas questões de direitos humanos; no estabelecimento do livre comércio recíproco; na adoção da Tarifa Externa Comum; na internalização das normas do bloco; do seu apoio às negociações extrarregionais, como por exemplo a parceria com a União Europeia, com os países da Ásia e do Oriente Médio e com outros blocos de interesse comercial.

O MERCOSUL passa por um momento de turbulências em que muitas vezes não fica claro que posição adotar em relação à crise venezuelana. Ao discutir o ingresso boliviano, as tendências são de aumento das tensões, o que somente será superado se os países membros decidirem agir como adultos que têm responsabilidades comuns, o que inclui a aceitação pela própria Bolívia, das regras do jogo.

Loading Facebook Comments ...

Artigos relacionados

Os três setores do sistema social no governo Bolsonaro


Com base nas propostas de campanha, no pensamento do presidente eleito, na visão de mundo e na trajetória das equipes (econômica, política e de infraestrutura militar), que darão rumo ao novo governo, bem como na grave crise fiscal em curso, é possível antecipar que o mercado será o mais beneficiado

Ler mais

Se for bem-sucedido, o STF pode ficar pequeno para Sergio Moro


Ao aceitar o cargo de ministro da Justiça do Governo Jair Bolsonaro, o juiz Sergio Moro dobrou a aposta no tabuleiro político brasileiro. Caso seja bem-sucedido, ele não se cacifa apenas para uma vaga no STF, mas pode almejar a Presidência da República.

Ler mais