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O preço da conversão de Meirelles

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A Anápolis de Henrique Meirelles é uma cidade com cerca de 400 mil habitantes, situada a 140 km de Brasília e a 40 km de Goiânia. É um conglomerado humano curioso. Boa parte da população tem origem árabe, o que explica a presença de cônsules honorários da Turquia e da Síria naquela localidade. Bons mercadores, os migrantes fizeram fortuna na distribuição de gêneros alimentícios e na construção de prédios comerciais em Brasília e arredores. Carlinhos Cachoeira investiu pesado no importante polo farmacêutico da cidade. Os irmãos Batista, que começaram com um pequeno açougue, construíram a organização que se transformou no maior produtor de proteínas do mundo.

Henrique Meirelles

Henrique Meirelles nasceu, cresceu e se desenvolveu ali. Ele saiu da pequena cidade e conquistou o mundo. Chegou ao cargo de presidente mundial do Bank of Boston, uma potência financeira. Aposentou-se no cargo e recebeu uma bolada. É um homem rico. Em tempos recentes, ele criou o Banco Original, justamente para os irmãos Batista. Recebeu outra bolada. Anápolis hospeda a sede da principal base aérea da FAB – é a pista onde vão pousar os primeiros Grippen. Lá funcionará o pátio de manobras da Ferrovia Norte-Sul e ostenta, em pleno funcionamento, uma fábrica de automóveis, consequência lógica do cruzamento de boas rodovias que unem o norte ao sul. Cidade pequena, porém importante. Tem orgulho de seus expoentes.

Quando retornou ao Brasil, depois de sua bem sucedida aventura no mercado financeiro norte-americano, Henrique Meirelles assinou a ficha de inscrição no PSDB e se candidatou a deputado federal por Goiás. Foi eleito com 183 mil votos. Mas atendeu a convite do então presidente Lula. Renunciou ao mandato, esqueceu a filiação e tornou-se presidente do Banco Central no governo PT. Teve bom desempenho. O mundo mudou, Dilma Rousseff caiu e Meirelles voltou ao proscênio, desta vez, para atender ao pedido do presidente Temer, do PMDB. Filiação partidária não é algo que preocupe o atual Ministro da Fazenda.

Pré-candidatura do PMDB

Quem percebe as expectativas dele, entende como perfeitamente normal sonhar com a Presidência da República. A mosca azul está voando em torno de seus objetivos. Além disto, a área econômica do atual governo tem se destacado por uma ação segura, clara e perfeitamente identificável. O país hoje está melhor do que estava há um ano. A inflação gira em torno de 3% ao ano, a taxa de juros beliscou 7% ao ano, o desemprego recuou e a balança comercial está em momento fulgurante – superávit de mais de US$ 60 bilhões. O sucesso é inegável. O momento é agora. Difícil surgir uma segunda chance para Meirelles, que está com 72 anos.

Não é fácil avaliar o momento exato e propício para dar sinais de que a candidatura está emergindo. Ele disse que o PMDB terá candidato à Presidência da República. Não é apenas uma frase. É a vocalização de vontade. O PMDB é uma federação de interesses regionais. Participou de todos os governos depois da Constituinte de 88 sem ter conseguido eleger, uma única vez, o presidente. Mas sempre participou do governo. Ser candidato do partido significa compor com interesses regionais. Nem Ulysses Guimarães conseguiu realizar esta façanha. Meirelles desdenhou, publicamente, do PSDB do Geraldo Alckmin. Talvez tenha cruzado a linha vermelha. Alckmin, apesar de paulista do Vale do Paraíba, tem jeito mineiro. Saberá dar o troco.

Anápolis é um prodígio. Uma situação excepcional no país. Décadas atrás foi a fronteira para a expansão em direção as terras férteis do norte. O avô de Meirelles foi prefeito da cidade por três vezes. O pai chegou a Secretário de Estado de Goiás e um tio alcançou o governo do Estado. Há uma história política, desenvolvida na cidade e no Estado, que justifica a ambição política. Mas, hoje, o Ministro da Fazenda prejudica a votação da reforma da Previdência por causa de sua presença constante na lista de presidenciáveis. Ele sabe disso.

Reforma da Previdência

A dificuldade de votar a emenda constitucional deriva, nos últimos dias, de parlamentares vinculados a outros candidatos que não desejam favorecer a reforma do Meirelles. Uma visão que se expande por Brasília é a de que Temer poderá estar construindo a candidatura de seu Ministro da Fazenda. O desgaste para aprovar um texto tão impopular ficaria para o atual governo. O próximo presidente não terá que descascar este abacaxi. Isto quer dizer que, quem aprovar a reforma da Previdência, agora estará colocando água no moinho de Meirelles. Conversão de economista em político tem preço. Saliva é o combustível da política, lembrava Ulysses Guimarães.

Publicado no Correio Braziliense

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