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A disputa em 2018 também inclui a narrativa politica

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A linguagem da política permite identificar o tipo de visão de mundo do interlocutor, tanto do ponto de vista político – se situado à direita ou à esquerda do espectro político – quanto do ponto de vista ideológico, se liberal ou socialista.

Se perguntarem a alguém à esquerda do espectro político sobre as visões de estado em disputa no pleito de 2018, essa pessoa dirá que existem três projetos em jogo: a) o estado de bem-estar social, b) o estado liberal-fiscal, e c) o estado penal.

Se for feita a mesma pergunta a alguém à direito do espectro político, essa pessoa dirá também que existem três visões em disputa: a) uma populista, com soluções fáceis para problemas difíceis, b) outra pautada pela razoabilidade, com reformas e equilíbrio fiscal; e c) uma linha dura ou de defesa ordem.

Nessa disputa também existem articulistas, que estão tão identificados com as forças liberais e fiscais, que chegam a dizer que qualquer alternativa de sucessão fora da continuidade do projeto atual, ou seja, fora daquilo que chama do “centro” político, representa ruptura, numa clara indução no sentido da preservação desse modelo.

É nesse contexto em que a disputa política se dará e, portanto, analisar o sentido das palavras e os que elas representam de desejo e compromisso com determinadas ideias é fundamental, inclusive para saber que interesses representa o interlocutor ou articulista.

Além da disputa de narrativa, é também preciso se preocupar, e numa escala ainda maior, com o que se convencionou chamar de pós-verdade, que é uma forma de abordagem que prioriza o julgamento moral em detrimento do debate das ideias, dos programas, dos conteúdos, enfim, da racionalidade.

Como regra, quem adota esse tipo de abordagem não tem como sustentar como legitimas ou éticas as ideias que professa, até porque busca obter apoio das potenciais vítimas de sua implementação, num processo de manipulação da real manifestação de vontade de cidadãos.

Esse processo consiste em buscar despertar nas pessoas as reações, os sentimentos e os comportamentos mais primitivos do ser humano, como forma de evitar o debate às claras dos conteúdos.

Nesse tipo de abordagem, a racionalidade, a verdade, o debate de conteúdo, nada disso interessa. O que importa é dividir as pessoas, interditar o debate e provocar reações e sentimentos de rejeição ou até de ódio aos agentes políticos e instituições que defendem ideias e propostas em favor das minorias marginalizadas ou mais vulneráveis social, econômica e politicamente na relação com o estado e o mercado.

A forma de fazê-lo é sofisticada. Emprega-se uma estratégia de comunicação que consiste em associar pessoas, movimentos, partidos ou instituições que defendem os interesses coletivos, a solidariedade, a justiça, o humanismo, a proteção dos mais necessitados, com práticas que agridem a fé, os valores, os costumes e a moral de milhões de brasileiros.

Trata-se de tática ardilosa, que interdita o debate ao substituir o exame do conteúdo do tema pelo julgamento moral, pela contestação, pela desqualificação, pela condenação, criando um ambiente propicio à formação de exércitos de fundamentalistas, que utilizam as redes sociais para espalhar boatos, mentiras, notícias falsas e não checadas contra as pessoas que pensam diferente delas.

Isso é mais preocupante, ainda, porque o volume de informações que se recebe diariamente, a especialização das notícias, a forma de divulgação por blocos ou cadernos que não guardam coerência entre si, facilitam essa estratégia, porque é praticamente impossível processar essa avalanche de “notícias” sem um método, que permita identificar o que é verdade do que é manipulação.

Um exemplo pode melhor ilustrar o que se afirmar.

Virou moda no Brasil criar-se portais com o objetivo de avaliar os parlamentares, geralmente dentro dessa lógica de desqualificar os que defendem os interesses coletivos e valorizar os que defendem o neoliberalismo ou a agenda do mercado financeiro.

A ideia consiste em criar critérios, inclusive de natureza ético-moral, para avaliar como bons apenas aqueles que defendem o receituário neoliberal e a visão moralista justiceira e desqualificar ou avaliar negativamente todos aqueles que defendem pautas sociais, coletivas ou humanistas.

Para disfarçar os critérios de avaliação parlamentar – que atribuem maior pontuação negativa para tudo que contrarie o interesse do mercado e pontuação menor ou mesmo negativa para os demais itens da avaliação – constituem conselhos – geralmente integrados por acadêmicos ou executivos de empresas com formação liberal ortodoxa e fundamentalista do ponto de vista fiscal – para analisar e julgar o voto dos parlamentares em relação ao mérito das políticas públicas.

Com esses critérios, líderes fundamentalistas da bancada ruralista, que chegam ao ponto de defender o trabalho escravo, aparecem como os melhores parlamentares, enquanto parlamentares como o senador Paulo Paim, cuja trajetória se confunde com a defesa dos mais vulneráveis, aparecem entre os piores.

A divulgação do resultado desses “rankings”, é óbvio, omite deliberadamente, o que efetivamente leva a que Fulano, conservador, seja um “melhor” parlamentar do que Beltrano, de esquerda. O que importa, em tempos de pós-verdade, é o rótulo que lhes é atribuído, por uma entidade que, em princípio, nem mesmo tem uma identidade política, mas apenas uma “marca”, como se fosse um sabonete ou pasta de dentes.

Por tudo isto, todo cuidado é pouco nestas eleições. O eleitor precisa ficar atento ao significado da linguagem política, necessita não apenas escolher bem seus candidatos, como também selecionar bem suas fontes de consulta e participar do processo do modo consciente e construtivo.

(*) Jornalista, analista político e Diretor de Documentação do Diap.

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