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A fragmentação da esquerda

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A deputada estadual pelo Rio Grande do Sul e ex-deputada federal por dois mandatos consecutivos Manuela D’Ávila (PCdoB) teve seu nome oficializado como pré-candidata ao Palácio do Planalto nas eleições de 2018. Aparentemente, a pré-candidatura deve ser utilizada pelo PCdoB para negociar uma aliança que garanta o melhor espaço possível para os comunistas não apenas na eleição presidencial, mas também nas disputas para governador, senador e deputados.

Ainda que o PCdoB abra mão de candidatura própria, é possível perceber uma pulverização de opções à esquerda, o que não interessa ao PT, que deve lançar o ex-presidente Lula como candidato em 2018, caso ele não fique juridicamente inviabilizado de concorrer.

Além de Lula e Manuela, as forças de esquerda já têm o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) e uma possível candidatura do PSOL (que pode ser a do deputado federal Chico Alencar ou a do líder do MTST, Guilherme Boulos, caso ele se filie à sigla) postados como pré-candidatos. A ex-senadora Marina Silva (REDE) também flerta com o eleitorado de esquerda, assim como o PSB, que hoje não conta com um candidato natural ao Planalto.

Essa fragmentação da esquerda é prejudicial ao PT, que pode ficar ainda mais isolado se esses partidos tiverem candidaturas próprias à Presidência. Aliás, não por acaso o senador Lindbergh Farias (PT-RJ) criticou o lançamento da pré-candidatura de Manuela, afirmando que as forças de esquerda deveriam se unir.

Um dos motivos que leva aliados históricos do PT, como o PCdoB, a cogitar um caminho novo em 2018 é a situação jurídica de Lula. Existe o temor de que uma eventual condenação do ex-presidente traga prejuízos políticos também aos aliados. É pensando nisso que o PCdoB resolveu valorizar seu passe.

Para evitar que essa fragmentação se efetive no próximo ano, PT, PSB, PDT e PCdoB anunciaram a criação de uma frente de centro-esquerda. O primeiro encontro da frente se dará no dia 28 de novembro, em Brasília, e seu objetivo é acertar uma atuação comum. Mas é pouco provável que os partidos que a compõem consigam uma unidade.

Ainda que Lula não saia candidato, a tendência é que o PT tenha candidatura própria. No PDT, Ciro Gomes só deve desistir de concorrer se Lula disputar o Planalto. E mesmo com o ex-presidente no páreo, não devemos descartar totalmente uma candidatura própria do PDT no primeiro turno. Marina Silva também deve concorrer.

A incógnita gira em torno de PSB e PCdoB. O PSB tem sido procurado por Ciro Gomes. Já o PCdoB, embora tenha lançado Manuela, pode acabar fechando uma aliança com PT ou PDT.

Lula no segundo turno ou esquerda fora?

A divisão das esquerdas não deve ter potencial para evitar, por exemplo, a ida de Lula ao segundo turno. Porém, caso o ex-presidente não seja candidato, a pulverização de candidaturas à esquerda tem potencial para dividir esse eleitorado e, no limite, derrotar a esquerda logo no primeiro turno.

Sobre isso, vale recordar que o Datafolha captou em sua última pesquisa a existência do fenômeno “Bolso-Lula”. Ou seja, na ausência de Lula, uma parcela de seu eleitorado migra hoje para o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ). Assim, sem Lula no páreo, com a esquerda fracionada e com o PSDB compondo uma aliança de centro, um segundo turno entre uma opção de centro-direita e outra de direita deve ser considerado.

Ouça o Podcast do Estadão sobre o cenário eleitoral fragmentado e a viabilidade de candidaturas de outsiders:

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