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A perplexidade com a Venezuela

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Há uma certa perplexidade hemisférica em relação à Venezuela. Ela se origina, aparentemente, na dificuldade em aceitar a incapacidade brasileira para influir positivamente e ajudar a superar a grave crise política, social e econômico dos nossos vizinhos.

Em outros países a perplexidade ainda é maior, porque os Estados Unidos mantém um discreto silêncio a respeito de quatro meses de protestos diários e mais de cem mortos nas ruas.

A capacidade brasileira de influir está em níveis muito baixos, ainda que o problema do vizinho tenha já características de problema interno, por conta da quantidade de venezuelanos que ingressam no país fugindo da violência e da falta de comida. Muitos atribuem esse desastre da erosão da capacidade da diplomacia brasileira aos anos de compadrio entre autoridades dos dois países.

Essa diminuição de influência corre paralelamente aos problemas de as grandes empresas brasileiras com interesses na Venezuela, como a Odebrecht, terem reduzido seus negócios naquele país quando seus dirigentes foram presos.

O nosso país era também o grande fornecedor de alimentos, já que na Venezuela há uma dificuldade estrutural até para criar frangos pois é melhor importá-los do Brasil. O intercâmbio brasileiro com esse país já foi de US$ 6 bilhões anuais (2012 e 2013), mas hoje, se chegar a um quarto disso, já será considerado um excelente resultado.

Nos primeiros seis meses deste ano o Brasil exportou para aquele mercado US$ 204 milhões, menos da metade do mesmo período do ano passado.

Atualmente só há dois países com grande influência na Venezuela: Rússia e China. Nenhum dos dois tem motivos para desejar uma mudança de governo, uma vez que foi com Nicolás Maduro que fizeram grandes negócios.

A Rússia, nas áreas de petróleo e mineração, além da venda de armas, e a China, com investimentos estimados em US$ 47 bilhões, em infraestrutura de transportes, habitação e comunicações.

Os empréstimos chineses estão sendo pagos com petróleo e a China hoje é o principal comprador do óleo venezuelano. As compras dos Estados Unidos foram caindo e apenas 8% do consumo americano provém da Venezuela.

O crédito russo e chinês e a coesão nas Forças Armadas parecem garantir a continuidade do regime e seu progressivo endurecimento, o que pode vir na próxima constituição.

Os venezuelanos estão convocados pelo governo para eleger, neste domingo, os representantes à constituinte, apesar dos protestos internos e externos. A oposição pretende paralisar o país nesta quarta e quinta com uma greve geral para demonstrar o repúdio a essa tentativa de mudança.

O governo está empenhado em uma frenética campanha de mobilização nas redes sociais e na imprensa oficial apesar de que as pesquisas indicam uma forte rejeição à ideia de mudar a constituição chavista. Segundo a pesquisa realizada pela empresa Datanálisis, no início do mês, 66,5% rejeita a convocação de uma constituinte e 83,4% considera desnecessário modificar a carta chavista.

Mas, a oposição nas ruas hoje só parece contar com ela mesmo, já que nem o Papa conseguiu avançar nas negociações em busca de uma saída política.

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