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Rapacidade na política (ou a conhecida roubalheira)

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A verdade é que as pessoas andam mentindo muito. Por qualquer critério utilizado, não conhecemos, ainda, o futuro presidente do Brasil. E não é somente falta de urna aberta. Toda a coisarada chamada pesquisa eleitoral não resiste à crítica social do julgamento. O efeito da pergunta é acalmar o pesquisador. Ele despreza o pesquisado.

Qualquer classificação do eleitor como de direita, centro, esquerda não quer dizer nada.

A pesquisa sabe o que quer e não suporta ouvir o que não quer. Ela finge esperar contraposições às próprias respostas. A pesquisa é escrava dos seus resultados.

O pesquisado joga com a vontade do pesquisador. Com pré-aprovação absoluta dos interessados na confusão, a pesquisa sai a campo, e erra.

Não há negação da política. Há desamor por políticos. A política não significa mais o que é. “Não nos diz nada”.

Um novo sentido se inicia para quem aprendeu a nadar quando o mar secou. As pessoas percebem que a melhoria da vida pode ser obtida por outros meios menos falsos. Porque entre o predomínio do interesse de gente comum, consumidora de bens e serviços, e o arsenal demagógico das celebridades, consumidores de votos, não há mais qualquer familiaridade. O eleitor fiel, dramaticamente, transpôs para um político seu destino.

Angústia de oprimido agarrado a nadador que se afoga.

As dificuldades de diálogo são alimentadas pelo barulho das posições predadoras. Quem mais aciona o dispositivo amigo-inimigo para provocar torpor é a política e sua frutífera vida privada. Monopoliza a emoção para esconder a ideia de que não aceita ser governada por ninguém.

A política tutelou a confiança da sociedade. Por isso, impõe todas as formas de comunicação, através de todas as instituições públicas, de maneira obrigatória como doença. Contaminou de tal forma o processo eleitoral que o resultado da eleição não é mais o sentimento coletivo de participar de uma comunidade de direitos e deveres partilhados.

A manipulação de propaganda, a campanha eleitoral permanente, o candidato honesto que vira governante desonesto, levou ao chão o bom nível da atividade. Qualquer um que se ajuste serve. Não é por outro motivo que não há mais político entre as pessoas mais relevantes de uma nação.

Enquanto isso, na vida real, o dinamismo ordinário-extraordinário das mudanças expulsa o senso comum e “a vontade de amar que paralisa o trabalho”. Mudou o conceito de status, é outra a cadeia simbólica que movimenta os corações.

Falar baixo, ser tímido, traços fora do padrão, expectativas modestas, não infligir demagogia aos outros, achar enganadora a pose do ministro do Supremo, ser livre pensador, sexualmente não exibido, obedecer voluntariamente às leis, recusar a ditadura da liberdade, estigmatiza pessoas, produz pressão sobre o conceito de bem-estar, ameaça a felicidade conformista.

A política de hoje não sabe nada do que é mobilização de consciência e desafio democrático. Quer transformar o cidadão livre em cliente do Estado e empacotá-lo como mercadoria. Não há nova política. É a mesma, desde que sem rapacidade.

Publicado no Blog do Noblat em 06/11/2017

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