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Um Houdini no Planalto? Michel Temer terá que fazer mágica

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Em 1911, o mágico húngaro-americano Harry Houdini executou sua “mágica” mais inusitada até aquele momento. Um animal – que até hoje não se sabe exatamente o que era – surgiu no litoral do estado de Massachussetts. Com mais de 650 quilos, já estava em decomposição. Era visualmente grotesco e gerava ânsias de vômito em quem chegava perto. No auge de sua fama, o célebre ilusionista entrou no estômago do bicho algemado e com as pernas presas. O monstro, coberto de correntes, fedia como nunca, levando a plateia de 1500 espectadores a nausearem enquanto observavam o feito.

Sendo Houdini, o desfecho não poderia ter sido outro senão o sucesso. Apesar de quase falecer envenenado no estômago da besta, o genial mágico conseguiu sair, para delírio daqueles poucos, mas animados curiosos (e jornalistas, claro) que já estavam esperando o pior. Foi muito aplaudido.

A mágica independe do aplauso

Brasília está muito distante de ser a Boston onde Houdini apresentou uma de suas mais inesperadas “mágicas”, no entanto, várias similaridades podem ser encontradas. Certamente o presidente Michel Temer não é nenhum Houdini em termos de popularidade, porém, já demonstrou que consegue executar algumas “mágicas” além da expectativa e da torcida de grande parte da plateia que o assiste. A aprovação do teto dos gastos pode ser considerada uma delas. A Reforma da Previdência é o que mais se aproximaria do evento da praia de Massachussetts em 1911, em termos de ousadia para um governo que se encontra com a popularidade baixíssima.

Popularidade baixa ou alta não importa para que um objetivo, mágico ou não, seja logrado. A plateia de 1911 era o fator menos importante para que Houdini conseguisse sair de dentro do estômago daquele bicho gigante e em estado de decomposição. A plateia podia vaiar ou aplaudir, mas isso não afetaria como ele se libertaria das dificuldades que ele se autoimpôs.

Não é preciso muita criatividade para ver nesse monstrengo gigante, putrefato e curioso o Congresso brasileiro que temos hoje. Justiça seja feita, alguns nomes no nosso Parlamento se salvam e, corretamente deverão discordar desta comparação, mas não é assim que a plateia que observa Brasília os enxerga. Como Houdini, Temer entra com as mãos e pernas algemado no “estômago do animal” para tentar o que muitos consideram impossível – aprovar a Reforma da Previdência.

Reforma da Previdência: maioria acredita que não será aprovada

Em pesquisa inédita da Arko Advice, realizada na segunda quinzena de outubro, os indícios de que o presidente terá mais dificuldades do que o mito do ilusionismo teve naquela situação são marcantes. Hoje, 78,77% dos parlamentares acreditam que o Presidente não conseguirá aprovar a Reforma da Previdência; 16,04% afirmam que sim e apenas 5,19% dizem que não sabem.

Dos 23 representantes do PMDB, 15 acham que a reforma não será aprovada nesta gestão; cinco acreditam que sim e três não sabem. No PSDB, dos 17 entrevistados 12 avaliam que não e cinco têm uma visão mais otimista.

Em relação ao que pode ser aprovado, uma maioria de 64,63% afirmou que não sabia ou não respondeu. Para apenas 16,98%, um tema relevante da reforma surge como um dos itens que deverão ser aprovados: idade mínima. A aprovação do texto na Comissão Especial é esperada por apenas 3,30%.

Planalto pretende enviar projeto após votação da denúncia

A expectativa do Planalto é que a reforma seja encaminhada após a votação da segunda denúncia que está prevista para o dia 25 de outubro. Tal comportamento otimista resulta na aposta de que muitos dos que se posicionaram entre os 78,77% visam expressar pessimismo para aumentar seu poder de barganha nas negociações com o governo. Há também a possibilidade, baseada em histórico verdadeiro, de que a decisão de um parlamentar de votar a favor ou contra um tema como a Reforma da Previdência dependerá de como seus colegas se posicionarão no dia da votação e principalmente quem estará coordenando articulação política do Planalto.

Não sabemos se Houdini carregou uma, duas ou dez chaves escondidas em algum lugar do seu corpo ao entrar naquele monstro marinho. Também não sabemos se alguém já havia deixado o material necessário para o escape de dentro do animal. O que sabemos é que algo foi feito e algo aconteceu naquele estômago repleto de gases venenosos e fedorentos que o possibilitou libertar-se das dificuldades autoimpostas.

O mito foi criado e engrandecido após um ato considerado impossível (e extremamente inusitado) até então. Certamente o que ocorrer em Brasília, pelo sim ou pelo não, não criará um mito sequer perto do que Houdini foi, mas não deixará de ser um feito. No mínimo demonstrará que no estômago da fera que é o Congresso Nacional, a sensação é de indigestão perante a Reforma da Previdência.

Publicado na GQ Brasil.

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