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Sonífera Ilha

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Nasci perto do mar, em uma encosta de pedra verde que se debruça sobre a praia mais famosa do mundo. Em um continente que é, na verdade, um conjunto virtual de ilhas isoladas do mundo. O Brasil/Brasis navega em um mar de contradições. Somos um arquipélago de vaidades e peculiaridades. Somos um povo com alma de ilhéu. Mas somos muitas ilhas.

Nem latino-americano nem africano. Tampouco ibérico. Algo que, em existindo, não existe, assim como o amor platônico que existe sem existir. O Brasil, tal qual a Ilha Desconhecida de José Saramago, navega em busca de si mesmo, cercado de vastas extensões que não vemos nem percebemos. Rodeado por um oceano de nostalgia do que pensamos ser e que nunca fomos.

Governadores piratas

O desapego e o desinteresse conseguiram fazer do Rio de Janeiro uma espécie de região de piratas do Caribe, onde governadores et caterva se esbaldaram com as verbas públicas sob o olhar complacente de uma elite que se preocupava mais em saber se ia dar praia do que em tomar o poder dos bandidos.

Os piratas do Caribe que assaltaram o poder público no Rio de Janeiro só chegaram lá porque a elite fluminense se omitiu de forma inequívoca e deliberada. Uma omissão que oscila entre ser libertária, esquerdista, infantiloide ou somente clientelista. Aquele sentimento que permitia furar filas no velho aeroporto do Galeão ou ser resgatado antes de passar pela Alfândega para não ser incomodado com burocracias. Ou ainda parar em fila dupla sem cerimônia.

Oportunidades desperdiçadas

Apenas elites politicamente retardadas podem desperdiçar as oportunidades propiciadas por uma Olimpíada e uma Copa do Mundo. E permitir que surtos de violência provoquem medo e desespero em uma localidade que deveria viver de sua incomparável beleza. As elites não gostam de verdade do Rio de Janeiro. Gostam da alegoria de um Rio que não existe mais. E que precisa ser reconstruído para realizar o potencial adormecido da cidade mais linda do mundo.

Publicado no Blog do Noblat em 30/11/2017

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